VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

domingo, 2 de março de 2014

O HAITI É ALI


ZERO HORA 02 de março de 2014 | N° 17720

ARTIGOS

Luiz Antônio Araújo*




Quando o debate sobre os gastos oficiais com a Copa do Mundo estiver no auge, em junho, outro projeto duradouro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá completado uma década: a missão das Nações Unidas no Haiti. Na segunda-feira, o próprio Lula tomou a iniciativa de abrir a discussão sobre o assunto com um interessante artigo no jornal The New York Times. Infelizmente, a imprensa brasileira e mundial, fiel à tradição de dar mais atenção às falas do que aos escritos do ex-presidente, dedicou escassa atenção à peça. Zero Hora e Diário de Notícias, de Lisboa, foram as exceções que confirmam a regra.

O título escolhido por Lula é significativo: “Não vamos nos esquecer do Haiti”. O risco de esquecimento, nesse caso, é considerável. Em julho passado, Lula falou durante uma hora em conferência sobre a política externa brasileira de 2003 a 2013, na Universidade Federal do Grande ABC, sem mencionar uma única vez o Haiti. No mesmo evento, o ex-chanceler Celso Amorim falou ainda mais (uma hora e 20 minutos) e tampouco citou o país caribenho.

A julgar pelo título e pela introdução, o texto do ex-presidente parece ter o propósito de fazer um balanço da presença brasileira na Missão de Estabilização das Nações Unidas para o Haiti (Minustah). A missão chegou ao país depois da queda do governo do presidente eleito Jean-Bertrand Aristide e do agravamento da violência urbana. Não se pode separar esses fatos, porém, do pano de fundo histórico. É um lugar-comum afirmar que o Haiti é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. Tem uma população que se aproxima da rio-grandense (9 milhões de habitantes), da qual 54% vivem na pobreza extrema, com renda de menos de R$ 2,33 por dia. A fome atinge 81% da população haitiana, percentual que sobe para 87% nas áreas rurais. Três décadas de ditadura da família Duvalier explicam o apelo que a ideia de democracia exerceu sobre os haitianos, permitindo duas transições pacíficas de poder entre presidentes eleitos, em 1996 e 2001. Isso foi ainda pouco, entretanto, para reverter as severas condições de existência dos haitianos. Infelizmente, Lula silencia sobre esse triste retrospecto (que conhece muito bem, diga-se), sem o qual é impossível entender a violência urbana disseminada após a queda de Aristide e mesmo os efeitos do terremoto que arrasou o país em 2010.

A grande pergunta que Lula e qualquer interessado em avaliar os 10 anos da Minustah deveria se fazer é: para que serviu a missão? Quando os capacetes azuis desembarcaram em Porto Príncipe, em junho de 2004, o país não estava em guerra. Os objetivos da Minustah eram, em termos gerais, melhorar as condições de segurança do país, reformar a polícia e garantir a realização de eleições. Se nenhuma dessas metas foi integralmente cumprida após 10 anos, a ponto de justificar a continuidade da presença da força no Haiti até 2016, como sugere o artigo no Times, o ex-presidente Lula deveria admitir que a missão internacional no país caribenho foi um fracasso. Para o ex-enviado da Organização dos Estados Americanos (OEA) Ricardo Seitenfus, ouvido pelo repórter Léo Gerchmann, de ZH, o diagnóstico é categórico: “Uma das piores missões da história da ONU”. Levantamento do Ministério da Defesa divulgado no final do ano passado indica que, até setembro, os gastos do Brasil com a missão no Haiti ultrapassavam R$ 1,9 bilhão (R$ 2,3 bilhões se corrigidos pelo IPCA). As Nações Unidas reembolsaram um terço desse valor aos cofres brasileiros. Assim, recai sobre o Tesouro um custo líquido total de R$ 1,5 bilhão nos últimos 10 anos. Não é nenhuma Copa do Mundo, mas merece debate. Se convém não esquecer do Haiti, como quer Lula, por que não tratar das razões de nossa presença por lá?

*JORNALISTA

sábado, 1 de março de 2014

DENÚNCIAS CONTRA ALIADOS DE CABRAL


28/02/2014 18h48

RAPHAEL GOMIDE

Novos documentos fazem renascer denúncias contra aliados de Sérgio Cabral. E podem reabrir investigações sobre as relações entre o governo do Rio de Janeiro e a empreiteira Camargo Corrêa


Era uma terça-feira. Aparentemente, seria mais um dia normal na Camargo Corrêa, um dos maiores grupos empresariais brasileiros, com 58 mil funcionários espalhados pelo país e pelo mundo. Mas aquele 25 de março de 2009 não foi um dia comum. Tinha tudo para ser lembrado como o início de um dos mais rumorosos casos de promiscuidade no Brasil, entre uma empreiteira e partidos políticos. Naquela manhã, 40 policiais federais varejaram o edifício sede da Camargo Corrêa, em São Paulo, e também casas e escritórios de funcionários e lobistas, suspeitos de operar um esquema de lavagem de dinheiro para a construtora. Na ação, batizada de Castelo de Areia, os policiais apreenderam uma série de documentos que, segundo eles, traziam indícios de transferências de recursos para políticos de diversos matizes, em contas no Brasil e no exterior. Entre os citados na papelada estavam nomes de PMDB, PT, PSDB, PR, DEM, PCdoB, PSB e PP. A operação que prometia dinamitar gabinetes em todo o país acabou desmontada no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Sob a alegação de que a ação da PF se baseara numa denúncia anônima, os ministros do STJ suspenderam o processo e anularam as provas recolhidas pela Polícia Federal.

O Ministério Público Federal discordou da decisão e, em agosto de 2012, recorreu aoSupremo Tribunal Federal. Em dezembro do ano passado, a subprocuradora-geral da República Maria das Mercês Aras, que atuou no caso, recebeu um conjunto de documentos que não integravam o processo original da Castelo de Areia. Por considerá-los relevantes, ela remeteu os documentos a Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, que representa o Ministério Público no STF. Empossado em setembro, Janot disse a sua equipe que tem interesse especial na Castelo de Areia. Segundo os procuradores envolvidos no caso, tais documentos, a que ÉPOCA teve acesso, podem levar à reabertura da Castelo de Areia. Os mesmos documentos causaram apreensão no grupo próximo ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

O cruzamento dos novos documentos com os relatórios anteriores da Castelo de Areia revela os bastidores da renovação da concessão do Metrô Rio, sem licitação, assinada por Sérgio Cabral no final do primeiro ano de seu governo, em 2007. Por meio de um Instrumento Particular de Transação, a então concessionária do metrô, a Opportrans, quitou uma antiga dívida do Estado com a Camargo Corrêa, por obras não concluídas de expansão do metrô nos anos 1980. A Camargo Corrêa, em contrapartida, encerrou cinco ações judiciais contra o Estado. O valor da dívida foi estimado em R$ 40 milhões. Em troca, o governo antecipou em dez anos a renovação do contrato da Opportrans e ainda a estendeu por mais 20 anos, até 2038. Esse acordo foi publicado no Diário Oficial, de forma discreta, no dia 31 de dezembro. Há uma incrível sucessão de coincidências entre as datas e os valores dos pagamentos estipulados no acordo e os documentos apreendidos na Castelo de Areia.

Wilson Carlos de carvalho e Carlos Emanuel Miranda (Foto: Michel Filho/Agência O Globo e reprodução)


Em anotações manuscritas e e-mails recolhidos na ação da PF, aparecem anotações que a polícia identifica como referências a Wilson Carlos de Carvalho, secretário estadual de Governo há sete anos e coordenador das últimas quatro campanhas de Cabral, e a Carlos Emanuel Miranda, sócio de Cabral na SCF Comunicação e Participações Ltda. até setembro de 2013, quando a empresa foi extinta. Os dois, segundo a PF, aparecem como beneficiários de pagamentos suspeitos no Brasil e no exterior, relativos à “dívida do Metrô Rio”. Os valores descritos nesses manuscritos e mensagens eletrônicas correspondem exatamente a 5% dos valores pagos pela Opportrans à Camargo Corrêa que constam do contrato publicado no Diário Oficial. As datas também. Em 2010, a Camargo Corrêa foi a principal doadora na reeleição de Cabral, com R$ 1 milhão.

O contrato assinado entre o governo do Estado, Opportrans e Camargo Corrêa estipulou a dívida com a construtora em R$ 40 milhões. Segundo o contrato, ela deveria ser paga em 12 parcelas mensais, a partir de 27 de janeiro de 2008. As duas primeiras parcelas seriam de R$ 3,35 milhões, e as demais dez de R$ 3,33 milhões. Do sétimo mês em diante, o valor sofreria correção monetária. A correspondência é impressionante com tabelas e e-mails apreendidos nos escritórios e residências do ex-vice-presidente e então consultor da Camargo Corrêa, Pietro Bianchi – apontado pela PF como o principal operador do esquema –, e do doleiro Kurt Pickel, acusado de enviar o dinheiro dos beneficiários ao exterior. Ambos foram presos na operação.

Nos e-mails e manuscritos de Bianchi, aparecem menções a percentagens destinadas a nomes em código e abreviaturas. Segundo a PF, Wilson Carlos era identificado nas anotações como “Secret. Gov Wilson”, “Secret. Wil”, “Secret. C.C. Wilson”, “Wilson” e “Wils”. Bianchi costumava usar nomes de animais para se referir a alguns destinatários do dinheiro. Miranda, o ex-sócio de Cabral, aparece uma vez como “Carlos Miranda” e outras três vezes, segundo a PF, como “avestruz”.

As anotações referentes aos dois sempre vinham relacionadas à “dívida do Metrô RJ” e a um valor em reais, seguido de um cálculo de 5% desse valor. Os 5% aparecem com um código. Por exemplo: “R$ 3,35 milhões, 5% – R$ 167.500 – Secret.Gov.Wilson”. De acordo com a PF, esses 5% eram o quinhão devido a Wilson Carlos ou a Carlos Miranda. Na época da apreensão, a PF desconhecia o acordo para o pagamento da dívida do metrô, apesar de ele ter sido publicado no Diário Oficial. Por isso, não pôde estabelecer no inquérito uma relação entre essas anotações e os pagamentos feitos pela Opportrans à Camargo Corrêa.

As coincidências entre os valores do acordo e os 5% atribuídos a Wilson Carlos e a Carlos Miranda se tornam mais impressionantes a cada pagamento. O primeiro repasse associado a Wilson Carlos, de R$ 167.500, em 25 de fevereiro de 2008, corresponde a precisamente 5% dos 3,35 milhões pagos pela Opportrans à Camargo Corrêa naquele mês. Na anotação atribuída a Bianchi, esta´escrito: “2ª parcela – R$ 3.350.000,00 – 25/02 –5% – 167.500,00 Secret. Gov. Wilson”. A quarta parcela devida pelo Metrô Rio à Camargo Corrêa , no dia 27 de abril, era de R$ 3,33 milhões. Os R$ 166.500 destinados à “Secret. Wil” correspondem exatamente a 5% disso. Nas anotações, se lê: “Metrô RJ 4ª parcela – 27/04/08 – R$ 3,33 milhões – 5% R$ 166.500 – Secret. Wil”.

Quando as mensalidades pagas pelo metrô à Camargo Corrêa foram reajustadas para R$ 3,56 milhões, a partir de julho de 2008, como previa o acordo, os valores continuam a coincidir. Em 25 de novembro, a abreviatura que, segundo a polícia, corresponde ao nome de Wilson Carlos aparece anotado novamente, ao lado do novo valor: R$ 177 mil, ou 5% da mensalidade corrigida. Escrito a caneta, lá está: “Metro – RJ – 11ª parcela 25/11 – 3.557.032 – 177.000 (Wils) RIM (código de Metrô Rio, segundo a PF).” O relatório final da polícia mostra que as anotações à mão, ao lado dos depósitos, eram o padrão usado para identificar os destinatários dos recursos pagos pela Camargo Corrêa.


A PF encontrou ainda, na casa de Bianchi, uma tabela intitulada “Atualização monetária – Parcelas da Dívida Metrô Rio de Janeiro”. O documento detalha cada parcela, a data de pagamento e o valor corrigido. Nas anotações atribuídas a Bianchi, há uma ligeira divergência do valor da tabela e do acordo, para calcular os 5% destinados a Wilson Carlos. Trata-se do terceiro pagamento, em 25 de março de 2008. Em vez de R$ 3.330.000, está escrito apenas R$ 3.300.000, com R$ 30 mil a menos. Com isso, os “5%” atribuídos ao “Secret. C.C. Wilson” caem a R$ 165.000. Em maio, em vez de R$ 3.330.000, há um acréscimo de R$ 20 mil. Lá está anotado R$ 3,35 milhões, separando os R$ 167.500 destinados a “Wilson”, cujo nome é grafado à mão, ao lado de “5ª parcela: pagto 26/05 – R$ 3.350.000,00 – 5% – R$ 167.500,00”. Mais dois repasses dos 5% relativos à “dívida do metrô” aparecem nas tabelas atribuídas a Bianchi. Em de janeiro e em dezembro de 2008. Nos dois casos, não há a identificação do receptor. O primeiro é de R$ 167.500, e o de dezembro, de R$ 177.000.

O cruzamento de dados obtidos nas casas de Bianchi e do doleiro Kurt Paul Pickel atingiu outro nome próximo do governador Cabral. Amigo de adolescência e marido de uma prima de Cabral, Carlos Emanuel Miranda é sócio do governador na SCF Comunicação e Participações Ltda., com 5% das ações, desde 2004. Segundo a PF escreveu num dos relatórios da Castelo de Areia, Miranda é o “provável beneficiário” de depósitos da Camargo Corrêa no exterior. Num e-mail de 9 de fevereiro de 2009, ele é citado como o destinatário de uma ordem de pagamento de R$ 177 mil. Além do nome “Carlos Miranda”, aparecem dois números de telefone do Rio, associados ao codinome “avestruz”. “Entregue por favor: reais 177.000 – para carlos miranda 021.7831-2421 ou 2511.7877 cod. = avestruz (entrega em são paulo)”, diz a mensagem.

A PF afirma que “a linha 2511-7877 está em nome de Carlos Emanuel de Carvalho Miranda”. Dados como endereço e CPF correspondem exatamente aos do sócio de Cabral. Em mais uma notável coincidência, os R$ 177 mil equivalem a 5% de R$ 3,56 milhões, valor das últimas parcelas que a Camargo Corrêa tinha a receber do Metrô Rio, segundo o contrato. Registrada em nome de Miranda, a linha 021 2511-7877 já pertenceu ao escritório político de Cabral e à SCF Comunicação e Participações Ltda., a empresa do governador com Miranda, sediada à Rua Ataulfo de Paiva, no Leblon.

Segundo a polícia, Miranda, identificado pelo codinome “avestruz”, foi destinatário de mais três depósitos no exterior, em dólares. Há referência a “avestruz”em duas ordens de transferência internacional de US$ 103.395, para bancos nos Estados Unidos e na China, de 8 de julho de 2008, encontradas na casa de Pietro Bianchi. Na segunda ordem – que cancela a primeira –, está anotada a sigla “RIM (código de Metrô Rio, segundo a PF) 167.500”, com caneta azul. Logo abaixo, está escrito em vermelho: “AVESTRUZ 103.395”. Os US$ 103.395 correspondem a exatos R$ 167.500 – convertidos ao câmbio de R$ 1,62, citado por Pickel em interceptação telefônica –, ou 5% da parcela paga em 27 de junho pelo Metrô Rio à Camargo Corrêa.

Segundo a PF, a proximidade entre Wilson Carlos e Miranda é tanta que, em alguns casos, há dúvida sobre quem recebeu o dinheiro. É o que ocorre na 11ª parcela do pagamento do Metrô. O relatório da PF afirma: “Os documentos retratam o valor de R$ 177.000 relacionado à obra do METRÔ do RIO DE JANEIRO. O primeiro manuscrito indica que o pagamento estaria relacionado a ‘WILS’, conforme já visto anteriormente, possivelmente (...) WILSON CARLOS CORDEIRO DA SILVA CARVALHO, secretário de governo do Estado do RJ. Contudo, nos documentos apreendidos na residência do doleiro KURT PAUL PICKEL, há menção a pagamento de R$ 177.520 ao bicho ‘AVESTRUZ’. Desta informação foi possível identificar que o provável beneficiário de tal pagamento seria CARLOS EMANUEL DE CARVALHO MIRANDA”. Havia tantos indícios contra Wilson Carlos que a PF pediu a instauração de um inquérito policial específico contra ele, para apurar se houve corrupção passiva e ativa.

A renovação da concessão do Metrô Rio foi um ótimo negócio para a Opportrans, uma parceria montada pelo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, com o Citibank. Na ocasião do acordo, o controle da Opportrans era do Citigroup e dos fundos de pensão – o Opportunity havia sido afastado da gestão em 2005, embora tenha mantido participação de 3,21% até 2009. Onze meses antes, em janeiro de 2007, início da gestão Cabral, o Metrô Rio contratara o escritório Coe­lho, Ancelmo & Dourados Advogados, do qual era sócia a mulher de Cabral, Adriana Ancelmo. Com o acordo, a Opportrans manteve os direitos sobre a concessão até 2038. Também ficou dispensada de pagar a outorga – pela qual desembolsara R$ 281,7 milhões, em 1997, o equivalente a R$ 718 milhões, em 2007 –, em troca de investir “a cifra aproximada de R$ 1 bilhão”. Apenas um ano e três dias depois do acordo, valorizado pela permissão de exploração agora de 30 anos – em vez dos dez anos que faltavam –, o consórcio foi vendido por R$ 995,7 milhões para a Invepar, grupo integrado pela construtora OAS e pelos fundos de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) e da Petrobras (Petros). A Procuradoria-Geral do Estado se opôs à prorrogação naqueles termos. O parecer não foi levado em conta.

De acordo com a assessoria de imprensa da Camargo Corrêa, o acordo triangular com o Estado e o Metrô Rio “foi homologado pela Justiça, que já havia determinado a penhora para pagamento da dívida reconhecida em valor superior”. A assessoria ressaltou que o STJ suspendeu o processo da Castelo de Areia e anulou todas as provas obtidas pela PF.

O governo do Rio afirmou que o secretário Wilson Carlos “jamais recebeu dinheiro desse ou de qualquer outro acordo que envolva o Estado e nunca teve conta no exterior”. O núcleo de comunicação do Estado afirma que “essa ilação de que 5% do valor do acordo teriam sido depositados em contas particulares no exterior é absurda e destituída de qualquer fundamento” e que “o Estado ou o secretário Wilson Carlos jamais foram intimados a se manifestar sobre tal disparate”. De acordo com o governo, Carlos Miranda foi sócio de Cabral “em uma empresa que deixou de operar há mais de sete anos e já foi extinta”. “Não vemos como ele possa ter se beneficiado do acordo entre o Estado e a empresa Camargo Corrêa.” Carlos Miranda foi procurado por ÉPOCA em 16 números de telefones diferentes e não foi encontrado.

O recurso dos procuradores do MPF está no STF, nas mãos do relator Luiz Roberto Barroso. Sua assessoria diz que o caso está “em análise” e ainda não há data para seu julgamento. Se o processo for reaberto, a Procuradoria-Geral da República terá a oportunidade de aferir se a Castelo de Areia trouxe à tona mais do que denúncias anônimas vazias.




A MARCHA DOS INDIGNADOS NO CARNAVAL


 28/02/2014 07h56

MARCELO BORTOLOTI E ANA LUÍZA CARDOSO

Estimulados por concursos, novos compositores de marchas carnavalescas tentam competir com as canções do século passado, as mais tocadas no Carnaval. O clima de insatisfação das ruas pode ajudar a resgatar a sátira nos hinos da folia


Homero Ferreira escreveu “Me dá um dinheiro aí” para um quadro de programa de humor na televisão, em 1960 (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)


A primeira marcha carnavalesca composta no Brasil, “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, está fazendo 115 anos. É difícil imaginar qualquer folião que desconheça sua letra. Não menos antiga e conhecida é “Cidade Maravilhosa”, de André Filho, hino oficial do município do Rio de Janeiro, com quase 80 anos de idade. Da mesma época vieram outras marchas clássicas como “Mamãe eu quero”, “O teu cabelo não nega” e “Jardineira”. Entre as dez músicas mais tocadas no Carnaval do ano passado, oito têm idade superior a 50 anos, segundo o ranking do Escritório Central de Arrecadação (Ecad), que monitora as músicas executadas em todo o país.

Com a retomada do Carnaval de rua no Brasil, a partir da última década, surgiram muitas tentativas de renovar este repertório. O pioneiro dos concursos foi o da Fundição Progresso, do Rio, criado em 2006. Na esteira deste vieram competições em São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Juiz de Fora, Taubaté, São João Del Rei e até Salvador, a capital da axé music, realizou este ano seu primeiro concurso de marchas.

Ao longo das nove edições do concurso carioca, o mais famoso deles, foram inscritas cerca de 7.500 novas marchas. É um número respeitável. As vencedoras – 80 no total – foram gravadas em disco. No concurso de Belo Horizonte - três edições até agora - apareceram 350 novas músicas. Os discos produzidos pelo concurso da Fundição Progresso, patrocinados por lei de incentivo, têm tiragem de 2.000 cópias, metade é distribuída gratuitamente em blocos e escolas públicas, e a outra metade vendida pela internet. A média de vendas é baixa 200 unidades. Apesar da farta produção, no clube das marchas carnavalescas mais tocadas em bailes e blocos, nenhuma entra.

O fenômeno intriga o mercado musical, pautado pelas sucessivas trocas de repertório. Para o crítico e pesquisador musical José Ramos Tinhorão, o gênero das marchinhas se esgotou. “O carnaval continua sendo um acontecimento importante para o brasileiro, que é um momento de extravasar. Mas não existe mais originalidade da manifestação cultural. Estes concursos provaram que forçar isto não funciona e cai no vazio”, diz.

A tradição das marchinhas no Brasil é antiga. No século 19, os cordões de carnaval, os precursores dos blocos de rua, rodavam pelo Rio de Janeiro cantando óperas ou músicas estrangeiras. Nenhum compositor havia se interessado em escrever algo para aquela manifestação popular. Em 1899, Chiquinha Gonzaga foi a primeira a se aventurar compondo “Ô Abre Alas”, para ajudar no desfile do cordão Rosa de Ouro, vizinho de sua casa, no bairro carioca do Andaraí. “Ela fez uma música lenta inspirada no andamento do cordão, que caminhava como se fosse uma procissão”, diz Edinha Diniz, biógrafa de Chiquinha Gonzaga. Divulgada boca a boca, a primeira marcha carnavalesca brasileira virou hino.

O gênero só ganhou maior popularidade na década de 1930, com os primeiros concursos de marchas carnavalescas e a instituição da rádio comercial no país. Esta fase gloriosa durou pelo menos 40 anos. “O papel do rádio era importantíssimo, não havia televisão. As emissoras tocavam as músicas do Carnaval, e a população comprava revistas com as letras. No Natal, todo mundo já estava cantando a música que faria sucesso no carnaval seguinte”, diz a historiadora Rosa Maria de Araújo, presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio.

Sempre com duplo sentido e versando sobre acontecimentos sociais ou políticos do período, as marchas funcionavam como uma espécie de crítica bem humorada da sociedade na época e eram o repertório principal dos clubes no país. Em 1963, João Roberto Kelly aproveitou o sucesso de músicos cabeludos como os Beatles e a turma da Jovem Guarda para compor a marchinha “Cabeleira do Zezé”, tendo como inspiração um garçom que seguiu esta moda dos cabelos compridos. Foi um sucesso. No mesmo ano, a vitória de Vera Lúcia Couto no concurso de Miss Brasil, primeira mulata a levar o título, inspirou a marchinha “Mulata Ye Ye Ye". Outro compositor ainda vivo, Homero Ferreira, de 85 anos, escreveu “Me dá um dinheiro aí” para um quadro de programa de humor na televisão, em 1960. O período foi marcado por um salto na urbanização do país e aumento da mendicância nas grandes cidades. O sucesso foi instantâneo. “Eu compus em setembro e lançamos em outubro”, diz Homero, bancário aposentado que até hoje recebe direitos autorais de suas composições famosas.

Hoje, o momento é outro. Para o antropólogo Roberto DaMatta, as marchas não fazem mais sentido nos dias atuais. “A marchinha tinha um lugar quando a sátira política e a ironia eram muito mais contidas que nos dias de hoje. Há uma liberdade tão grande na imprensa escrita, falada e nas redes sociais que a marcha perdeu seu encanto”, diz.

Um dos medalhões desse tempo de ouro discorda. O compositor João Roberto Kelly, de 75 anos, recebe até hoje por suas composições famosas “Maria Sapatão” e “Cabeleira do Zezé” e está otimista. Kelly enxerga uma interessante renovação do gênero. Diz que há músicas de ótima qualidade criadas para os concursos, que só não vão adiante por questões comerciais. “É inocência achar que você pode lançar uma música 15 dias antes do carnaval e ela vai fazer sucesso. Por melhor que ela seja, precisa de um tempo de divulgação”, diz. A despeito da falta de planejamento, o clima de indignação que tomou conta das ruas, com manifestações contra a política "e tudo que está aí", pode ajudar. "Marchinhas se prestam a criticar, política ou costumes. Esse tipo de composição está em sintonia com o espírito dos movimentos atuais", diz Kelly.


Não é à toa que um dos grandes sucessos da nova safra é a marcha "Baile do Pó Royal", do coletivo Canto da Lagoa, vencedor do concurso Mestre Jonas de Belo Horizonte deste ano. A música foi inspirada no caso do helicóptero do deputado estadual Gustavo Perrella (SDD-MG), apreendido com cerca 600 quilos de cocaína em novembro do ano passado. Na internet, a canção bombou. O trocadilho com o nome do deputado ("O pó rela no pé e o pé rela no pó") chegou às redes sociais e teve mais de 150 mil visualizações no Youtube . “Para nossa surpresa, a marchinha teve uma grande repercussão. Esse é o grande barato da internet”, diz um dos compositores, Thiago Dibeto.


Outra composição beneficiada por um episódio quase único na história do Rio é "Cadê a viga", de Cássio e Rita Tucunduva. A música - vencedora do concurso da Fundição Progresso (assista ao lado) - faz sátira com o desaparecimento de seis vigas de aço no Rio de Janeiro, pesando 20 toneladas cada, e que valiam R$ 14 milhões. O material, fruto da demolição do Elevado da Perimetral, desapareceu em outubro passado e até hoje não foi encontrado. Com o refrão "senhor prefeito, então me diga, aonde foi que enfiaram a tal da viga?", a canção segue a ironia típica e o duplo sentido das marchinhas de antigamente.

Na capital baiana, a vencedora do 1º Concurso Baiano de Marchinhas - Prêmio Moraes Moreira foi uma letra inspirada nas redes sociais. Me cutuca, do grupo Os Marchistas, brinca com os bordões da internet, ironiza a carência comportamental dos que estão sempre ávidos por fãs e amigos, mas a letra, rimada e divertida (Não tenho amigos/ Não tenho fãs/Me revoltei eu vou sair do Instagram), ficou pouco conhecida. Não é possível ouvi-la nem no site do concurso. O público não compartilhou em massa.

Para o músico Eduardo Dusek, autor de algumas das marchinhas premiadas em concursos nacionais, o problema é mesmo falta de divulgação. “Antigamente a mídia começava a divulgar as músicas de Carnaval quatro meses antes. Não é um concurso realizado com 15 dias de antecedência que vai resolver isto”, diz.

O sociólogo Dimitri Fernandes, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e estudioso do Carnaval, vê um movimento de cultivo à autenticidade na música, como reação à explosão de gêneros comerciais como o pagode. Há uma revalorização da tradição musical, o que, em tese, ajudaria a retomada da marcha carnavalesca. O problema, segundo Fernandes, é que esse interesse ainda está muito restrito. “Os grupos maiores preferem consumir as marchas antigas que caíram no domínio público e viraram clichê”, diz.

Os blocos de Carnaval voltaram a ganhar força nas ruas do Rio na década de 2000 (Foto: Thiago Lontra/Agência O Globo)

UM PACOTÃO DE SARROS NO PODER


01/03/2014 10h15

FLÁVIA TAVARES

O bloco mais tradicional de Brasília sai do semiaberto e vai para a folia cantar o ridículo dos políticos


Joka Pavaroti, um dos fundadores do Pacotão (Foto: Celso Junior/ÉPOCA)

Joka Pavaroti nem titubeou ao escolher o lugar para contar a história do Pacotão, o mais tradicional bloco de carnaval da cidade... que não tem carnaval. “Vamos no Beirute, lá é nosso barracão”, disse. O Beirute, fundado em 1966, oito anos antes do Pacotão, é um tradicional boteco de Brasília. (Na jovem capital, qualquer coisa fundada antes do governo Sarney já é tradicional.) Conceda-se que o barracão da turma de Pavaroti, um dos fundadores do bloco, não impressiona. Lá, não se encontram voluntários trabalhando incessantemente em fantasias ou em carros gigantes de isopor. Mas, no que importa, a estrutura do Beirute atende perfeitamente às mais urgentes necessidades daqueles sambistas compenetrados no processo criativo pré-carnavalesco. A cerveja chega sempre geladíssima; o quibe vem quentinho e crocante. O samba é inevitável.

Na terça-feira pré-carnaval, lá estava Joka Pavaroti, o tenor que não sabe cantar. Ou tocar instrumento algum. E que não se parece com sua contraparte italiana. Quem disse que apelido precisa fazer sentido? Precisa apenas pegar. Ao lado de Pavaroti, sentava-se o cabeludo Paulão de Varadero, que, claro, não tem nada de cubano. Estavam ali, como eles mesmo definiram, “os dois últimos fígados sobreviventes entre os fundadores”. Prontos para rememorar as marchinhas do bloco que se transformou em consciência crítica e satírica do poder – um ato anual de deliciosa rebeldia numa cidade que se leva a sério demais. Para inspirar o ziriguidum, sorvete de rapadura na mesa. Afinal, com o fígado não se brinca. Talvez só no Carnaval.

O nome científico do Pacotão é Sociedade Armorial Patafísica Rusticana. Armorial em homenagem ao movimento de Ariano Suassuna, que queria criar uma arte erudita com elementos da cultura nordestina; rusticana em referência à ópera italiana "em exaltação ao vinho"; patafísica só de galhofa mesmo. Há 36 anos, o bloco atravessa o centro de Brasília numa de suas vias mais movimentadas, a W3. “Pela contramão”, Pavaroti ressalta. O auge da farra acontece à tarde, no túnel que separa a Asa Sul da Asa Norte, pertinho da Esplanada dos Ministérios. "É a nossa apoteose", dizem os pacoteiros. O bloco foi criado em 1978 por jornalistas que voltavam a se organizar depois dos anos mais duros da ditadura militar. Seu nome foi inspirado pelo “Pacotão de Abril”, lançado pelo presidente Ernesto Geisel. O infame Pacotão de Abril garantiu que a maioria governista fosse eleita nas eleições de 1978. Garantiu também uma justa homenagem ao pai da ideia: “Geisel, você nos atolou/ O Figueiredo também vai atolar/ Aiatolá, Aiatolá, venha nos salvar / Que esse governo já ficou gagá/ Gagagageisel...” O Figueiredo aí da letra é aquele ex-presidente que tinha mais simpatia por cavalos do que por jornalistas. E que, quando deixou o poder, pediu para ser esquecido. Dizem os pacoteiros que Figueiredo, quando era presidente, desfilava disfarçado no bloco. Ele nunca desmentiu...

Desde a criação do Pacotão, as marchinhas sempre foram bem humoradas, sem preferências partidárias. “Nós somos o menino levado que grita que o rei está nu!”, diz Paulão. Ele trabalha hoje na Rádio Câmara e Joka, até janeiro último, trabalhava no Jornal da Câmara. Estar dentro da máquina pública não os descredencia para criticá-la, eles dizem. Nem receber recursos do Governo do Distrito Federal, destinados a pagar a banda de 40 músicos e a produção dos CDs com as marchinhas. “Nos anos da ditadura, sofremos censura, tivemos faixas recolhidas. Mas sempre seguimos em frente, de forma independente, criticando todo mundo”, diz Pavaroti. Foi assim que, como retaliação a um período de inflação já sob o Plano Real, Pavaroti compôs a estrofe, que ele cantarola já rindo: “Se você pensa que cebola é caro/ O caro é alho, o caro é alho”. E para bater no ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, um dos políticos mais queridos da história do Pacotão, Joka escreveu: “Tive um palpite infeliz/ Joguei no burro/ E deu Roriz”.

O carnaval de Brasília não é exatamente pulsante. Nunca foi. Políticos, que mal gastam as semanas úteis na capital, estão bem longe. Mesmo os brasilienses preferem pular o carnaval longe da cidade. Sempre foi assim. Os que ficavam para trás, porém, encontravam sua folia no Pacotão. Isso mudou nos últimos anos. Com o nascimento de outros blocos, inclusive algumas dissidências, e principalmente com a chegada do PT ao governo federal, o Pacotão passou por um período de decadência. A bronca dos petistas, que eram assíduos no bloco, foi transformando toda marchinha em polêmica, em problema, em mimimi. De nada adiantou o aviso dado pelo Pacotão em sua música-tema de 2003, quando Lula se elegeu: “O Pacotão não sobe a rampa do Planalto/ Fica com o povo na folia e no asfalto”. O humor ficou; os petistas sumiram.

Sumiram também, e não por acaso, os trios elétricos que eram tradicionalmente cedidos ao Pacotão pela Central Única dos Trabalhadores, a CUT, ligada ao PT. Subitamente, os trios elétricos passaram a dar defeito antes de cada carnaval. Até o atual governador de Brasília, Agnelo Queiroz, do PT, sumiu. Quando era deputado, desfilava sempre no Pacotão, em busca do voto de jornalistas e intelectuais. Nunca mais apareceu – e ainda ficou devendo sua parte na cota de 500 camisetas que prometeu ajudar a pagar antes de ser ministro do Esporte. “O pessoal tem dito que a gente tucanou. É bobagem. A gente sempre bateu em todo mundo. A gente não vai ser censurado”, diz Pavaroti. Paulão se exalta, lembrando que os petistas estão "sentados no colo do Sarney", mas logo já emenda, sorrindo, a cantoria da marchinha que compôs para este ano. "Eu vou morar lá na cadeia de Pedrinhas / Com o Zé Dirceu e o pessoal do Mensalão / O Zé Sarney , a Roseana e a Dilminha / Já prometeram melhorar a situação / Não é pouca merda, não / No semiaberto vou sair no Pacotão / O Pacotão quer se mudar pro Maranhão".

Pois foi neste clima que Antonio Jorge, ex-rei momo de Brasilia, e seu irmão, Antonio Carlos, tentaram emplacar uma marchinha neste ano. Depois de fracassar duas vezes, eles queriam uma letra imbatível, conta Antonio Jorge nos banquinhos de madeira do Beirute. Pelas regras da disputa, o ritmo não poderia ser axé. Estavam vetadas as paródias. O conteúdo não poderia ser romântico nem elogioso a nenhum político. Para atender o gosto do público, o melhor é que a letra fosse curta e simples. Os Antonios matutaram, matutaram.. Mas, a cada tema, pensavam: “Ah, mas isso vai ser criticado. Isso outro pode ser mal interpretado. Tal tema pega mal com tal comunidade…”

De tanto se autocensurar, Antonio Jorge e Antonio Carlos se convenceram: o tema da marchinha devia ser a própria censura - a censura dos dias de hoje, mais sutil, que prescinde de decretos presidenciais, derivando sua autoridade da sensibilidade que teme o politicamente incorreto. E qual o símbolo mais sonoro da censura? O "pi" usado em transmissões televisivas para bloquear palavrões. “Com o 'pi', cada um usa a carapuça que achar melhor”, diz Antonio Jorge. A marchinha que venceu outras 46 no concurso e embalará a folia satírica do Pacotão este ano é a seguinte: “Pra quem pensa que a censura acabou/ Tá enganado, agora é que começou. Para o PT/ Pi, PI/ Governador/ Pi, Pi/ A presidenta/ Pi, pi, pi, pi, pi, pi/ José Dirceu/ Pi, pi/ O Genoíno/ Pi, pi/ Eleitor burro/ Pi, pi, pi, pi, pi, pi…” Antonio Jorge se diverte lembrando que queria colocar oito "pis" para Dilma Rousseff, mas achou que aí já era demais.

A letra foi condenada nas redes sociais pelos que vestiram as carapuças. Houve quem chamasse a marchinha de tucana, houve quem achasse absurdo chamar o eleitor de burro. Mas Pavaroti, Paulão e Antonio Jorge não se abalam. “A eleição foi manipulada como sempre é”, diz Pavaroti, rindo. “Mas quem quiser continuar brincando pode ir nos acompanhar no domingo e na terça-feira.” Quer saber mais? Pi, pi, pi, pi.



UM MINISTRO EM APUROS

REVISTA ISTO É N° Edição: 2310 | 28.Fev.14


Denúncia feita por ISTOÉ leva Manoel Dias, do Trabalho, a ser investigado pela Comissão de Ética da Presidência da República

por Izabelle Torres 


Desde que assumiu o Ministério do Trabalho, em março de 2013, o ministro Manoel Dias vinha se mostrando capaz de driblar as denúncias envolvendo sua pasta sob a alegação de que não sabia de nada. A situação mudou na semana passada, quando a Comissão de Ética Pública da Presidência da República decidiu que suas explicações sobre o esquema de propina para aprovar a criação de sindicatos não são convincentes. Agora, sua conduta será investigada em um processo disciplinar. O nome de Dias passou a ser alvo da Comissão de Ética depois de uma reportagem publicada com exclusividade por ISTOÉ em janeiro deste ano. Nela, a empresária Ana Cristina Aquino revela que foi obrigada a pagar propina para Carlos Lupi, à época chefe da pasta do Trabalho, para conseguir autorização do ministério na criação do Sindicato dos Cegonheiros em Pernambuco. Segundo Ana Cristina, o esquema montado por Lupi continua até hoje na gestão de Dias e é articulado pelo advogado João Graça, assessor especial do atual ministro.


NO ALVO
A conduta de Dias será investigada em um processo disciplinar

A situação de Manoel Dias deve se complicar nas próximas semanas. O caso será relatado pelo próprio presidente da Comissão de Ética, Américo Lacombe, considerado criterioso na análise da conduta de autoridades. Lacombe deve pedir informações ao Ministério Público de São Paulo e de Minas Gerais, que já investigam o caso. Entretanto, a comissão não decidiu se vai chamar a empresária para ser ouvida pelos conselheiros ou se o processo vai se basear apenas nos documentos apresentados por ela. Detalhe importante: a comissão não tem papel judicial e poderá apenas sugerir à presidenta Dilma Rousseff a demissão do ministro, por desvio de conduta. Pode ser o primeiro passo para desbaratar as irregularidades praticadas há anos no Ministério do Trabalho.




O CANDIDATO DOS MILICOS

REVISTA ISTO É N° Edição: 2310 | 28.Fev.14

Movimento surgido na caserna e que já conta com o apoio de mais de cinco milhões de pessoas quer lançar o general Augusto Heleno, chefe da missão brasileira no Haiti, para concorrer à presidência da República


Josie Jeronimo


Aos 66 anos, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira é um fenômeno que não aparece nas pesquisas de intenção de voto nem frequenta as análises políticas convencionais. Na internet, porém, sua eventual candidatura à Presidência da República tem feito sucesso. Conforme dirigentes de 68 associações de militares da reserva, que costumam refletir o pensamento de boa parte da caserna, o movimento “general Heleno presidente” alcançou nas últimas semanas o apoio de 5,7 milhões de eleitores. Uma ordem de grandeza respeitável em qualquer circunstância. Apesar desses números, o general Heleno, que foi comandante militar da Amazônia, e também esteve à frente das tropas da ONU que mantêm a ordem no Haiti, construindo uma rara liderança fardada nascida após a democratização do País, tem tudo para se transformar na principal estrela de um movimento de caráter simbólico. Oficial da reserva desde maio de 2011, ele teria de ter preenchido alguma ficha de filiação partidária até outubro do ano passado para poder disputar a eleição e até agora não se posicionou sobre isso. Seus aliados não confirmam nenhuma vinculação partidária do general, embora também não descartem a possibilidade de este ser um segredo estratégico. O certo é que, com o apoio que tem recebido, o general não será um eleitor qualquer.


POLÊMICO
O general Augusto Heleno: ele disse que a política indigenista
do governo Lula era "lamentável, para não dizer caótica"

O sucesso do general na internet tem explicação. Num universo político em que os principais candidatos têm uma postura que admite apenas mudanças de tonalidades cinzentas entre o centro e o centro-esquerda, com receio de descontentar eleitores desconfiados da propaganda eleitoral, o general apresenta um discurso conservador que um bom número de eleitores gosta de ouvir. Ele tornou-se uma celebridade instantânea ao dizer que a política indigenista do governo Luiz Inácio Lula da Silva era “lamentável, para não dizer caótica,” afirmação que lhe custou o comando militar da Amazônia. De lá para cá, ironizou o “passado ilibado” de Renan Calheiros, criticou a política econômica do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e chamou o acordo do Mercosul de um “mero tratado bolivariano”. Heleno já definiu o ex-ministro José Dirceu como o “maior colecionador de rabos presos” da República. Aliados e amigos do general afirmam que, ainda que a legislação impeça uma candidatura própria, irão entrar na campanha como parte de um “movimento anti-PT.” O capitão Augusto Rosa, um dos mais ativos aliados do general, faz críticas ao programa Bolsa-Família que a oposição civil abandonou há muitos anos. “Estamos criando uma geração de pais vagabundos que não servem de referência para os filhos.”



O discurso conservador não faz do general Heleno um defensor do golpe militar de 1964, mas aos mais próximos ele gosta de repetir uma afirmação pouco convicta sobre os valores democráticos. “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”, diz, citando uma frase cubana. A boa notícia em torno da liderança do general é que, desde a redemocratização do País, é a primeira vez que se consolida entre as Forças Armadas um movimento que pretende se valer do voto e das vias democráticas para colocar suas posições. Os militares que se articulam em volta de Heleno pretendem formar o Partido Militar Brasileiro, PMB, que anuncia ter conseguido filiar 490 mil eleitores para obter registro no TSE – se todas as fichas forem regulares, faltarão 80 mil para que possa chegar ao registro definitivo. Por enquanto, a exemplo do que acontece com os simpatizantes da Rede, de Marina Silva, os candidatos que apoiam a criação do PMB estão espalhados por outros partidos ou usando o PRTB como “sigla franqueada” para disputar as eleições de 2014. O deputado comunista Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal que fez fama na Operação Satiagraha, já assinou sua ficha de apoio e milita pela criação do partido. Através de seu site, Protógenes costuma pedir aos eleitores que façam o mesmo. Outro aliado seguro é o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que se dedica a organizar o partido no Rio de Janeiro e é um nostálgico assumido da ditadura. Longe da política, mas famoso no meio militar, o primeiro astronauta brasileiro, o coronel da Aeronáutica Marcos Pontes, também fará parte do diretório de São Paulo.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, Eliezer Rizzo, analisa a emergência do descontentamento militar como parte do descontentamento geral do funcionalismo com os salários. No governo Lula, relembra, o Planalto investiu em plano de recuperação salarial do funcionalismo e ganhou a simpatia geral, inclusive dos fardados. Mas essa política foi abandonada no governo Dilma, levando a uma reação previsível nas repartições e na caserna. Para Eliezer Rizzo um movimento dessa natureza faz parte natural dos regimes democráticos. “É preferível ter um partido pró-militares disputando eleições a ter grupos em atitude de confronto com o sistema democrático. Grande parte da população considera a democracia como frágil, corrupta, inoperante, como se um regime forte e antidemocrático não padecesse de situação similar. Mas o regime democrático pode perfeitamente incorporar essa iniciativa.”



Os militares estão misturados à política brasileira desde a Proclamação da República, que foi obra de um golpe militar. Depois de Deodoro e Floriano, os dois primeiros presidentes, o Brasil teve um terceiro general presidente, Eurico Dutra. Além deles, no pós-guerra surgiram dois candidatos competitivos, ainda que derrotados nas urnas, o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Henrique Lott. Uma diferença é que esses candidatos nasceram no interior de partidos civis, enquanto o movimento que carrega o general Heleno nasceu no universo militar, em suas famílias e associações de reservistas. Os militares têm causas que seduzem muitos eleitores, como o combate às cotas raciais e também ao casamento entre homossexuais. Sua agenda, no entanto, tem vários elementos típicos da caserna.

O Partido Militar Brasileiro denuncia a investigação conduzida pela Comissão da Verdade em torno dos crimes do regime como uma forma de revanchismo. Embora determinadas atitudes da Comissão possam mesmo estimular a interpretação de que se trata de um movimento “revanchista”, ela cumpre um papel necessário, indispensável à democratização que se defronta com a memória da tortura. No próximo 31 de março, data que foi retirada do calendário das celebrações militares pela presidenta Dilma Rousseff, o general Heleno vai dar uma palestra sobre a deposição de João Goulart para um grupo de maçons de Brasília.



FOTOS: JOEDSON ALVES/AGêNCIA ESTADO/AE, Roberto Castro / AG. ISTOÉ; Anibal Philot / Agência O Globo; Cris Komesu/Folhapress

r

A CRÍTICA DO JUÍZ



ZERO HORA 01 de março de 2014 | N° 17719


EDITORIAIS




Artigo assinado ontem pelo juiz Pedro Luiz Pozza sobre a dificuldade do governo estadual para pagar precatórios alinha exemplarmente algumas mazelas que impedem o desenvolvimento do Estado. Estranha o magistrado que o Executivo alegue falta de recursos para pagar credores, mas não hesite em criar estatais como a Empresa Gaúcha de Rodovias, quando o Daer poderia fazer o mesmo trabalho de administrar os pedágios. Ele aponta também outros entraves: gastos demasiados com servidores, endividamento desnecessário, criação e manutenção de empresas estatais que poderiam ser privatizadas ou funcionar com menor estrutura. Questiona até mesmo a manutenção do Banrisul como banco público, com o custo elevado da dívida contraída com a União para salvá-lo.

Muitas das observações do magistrado são procedentes. Algumas, porém, deixam de ser resolvidas pelos governadores porque esbarram no próprio Judiciário, caso dos gastos com servidores inativos, que, segundo seu levantamento, representam mais de 50% das despesas de pessoal e mais do que o dobro do que gasta o governo paulista na mesma rubrica. O que pode fazer um administrador para superar a barreira do chamado direito adquirido?

Mas a verdade é que os governantes, em sua maioria, costumam empurrar os problemas para o futuro. Distribuem benesses e adiam compromissos, conscientes de que o mandato tem prazo para acabar e a carreira política continua depois. É justamente esse descompromisso com a coisa pública que o juiz flagra em sua crítica, concluindo com uma pergunta desafiadora: “A quem interessa que a situação não mude?”.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O artigo do juiz Pozza merece um reflexão sobre a harmonia e a independência que estabelece um sistema de pesos e contrapesos na tripartição dos Poderes da República brasileira.  Infelizmente, não há harmonia, nem independência e tampouco uma justiça ágil e coativa capaz de enfrentar os poderes políticos, e quem governa domina o poder representativo com maioria, verbas e cargos. Neste cenário, o poder político faz o que quer com as leis, não cumpre deveres, incha a máquina pública e desperdiça verbas para atender privilégios, obras faraônicas e interesses dos partidos aliados visando cargos, emendas e manutenção do poder.