VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

sábado, 4 de outubro de 2014

O BRASIL VAI MUDAR?

REVISTA ISTO É N° Edição: 2341 |  04.Out.14 - 11:35


Num clamor por mudanças, multidões ocuparam as principais avenidas do País em junho do ano passado. Agora, chegou o momento de expressar esse desejo através do voto. O Brasil que emergirá das urnas depende do eleitor

Claudio Dantas Sequeira






As manifestações populares de junho de 2013 revelaram a insatisfação do brasileiro com a situação do País. Aos primeiros protestos contra o aumento da tarifa do transporte público logo se somaram críticas generalizadas a problemas como a inflação crescente, precariedade dos serviços de saúde e educação, ineficácia das políticas de segurança pública, corrupção e total carência de infraestrutura de mobilidade urbana. Pesquisas de opinião realizadas até a metade deste ano indicavam que 70% dos eleitores queriam mudanças na forma de governar o Brasil. Chegou o momento de transformar esse desejo em realidade. Neste domingo 5, mais de 140 milhões de eleitores têm a oportunidade de comparecer às urnas para escolher o presidente e os governadores, renovar o Congresso Nacional e as assembléias legislativas nos Estados.

Agora é a hora de utilizar o principal instrumento de mudança política e social, consagrado em todas as democracias do mundo, que é o voto. Só a expressão da vontade do povo por meio do voto pode garantir a inflexão nos rumos do País que se anseia. Como diria Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras experimentadas”. Por isso, antes de apertar o botão “confirma” da urna eletrônica, o eleitor deve refletir bem sobre sua escolha para não se arrepender depois. Nos três últimos meses de campanha eleitoral, praticamente todos os candidatos, mesmo sem mover um centímetro em suas convicções, passaram a ostentar um bem ensaiado e conveniente discurso de ruptura com as práticas atuais. Até a presidenta Dilma Rousseff, cujo partido está há 12 anos no poder, lançou mão da retórica da mudança – sinal de que o País precisa mesmo de uma correção de rota. O candidato do PSDB, Aécio Neves, defende uma nova forma de governar e mostra como fazê-lo de modo seguro – até antecipou o futuro ministro da Fazenda, o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga — , enquanto o PT promete mudanças administrativas pontuais e Marina Silva, do PSB, apresenta fórmulas do que chama de nova política, mas não raro é ambígua e não deixa claro como irá montar sua equação.



Treinada pelo marqueteiro João Santana, Dilma pode até ter melhorado seu desempenho em debates na TV, mas, até por ser governo há mais de uma década, encontra dificuldades em apresentar propostas que transformem o jeito petista de governar. A começar pela economia, um ponto bastante criticado de sua gestão. Seja quem for o próximo presidente, ele (ou ela) terá de retomar o crescimento e impedir a explosão dos índices de inflação. Não será tarefa fácil. Antes de tudo, precisará ganhar a confiança do mercado com medidas de austeridade fiscal e transparência. Durante a campanha, a presidenta disse indiretamente que, na hipótese de um segundo mandato, pretende substituir o ministro da Fazenda, Guido Mantega, titular do cargo desde 2006. “Governo novo, equipe nova”, afirmou ela. Mas isso não foi o suficiente para acalmar mercados e empresários que pedem maior interlocução. A candidata não admite que tenha desleixado a observância ao “tripé macroeconômico”, receita de estabilidade adotado durante o primeiro governo do presidente Lula que prescreve um regime de metas de inflação, de superávit fiscal e câmbio flutuante.



Em sentido inverso, Dilma tenta reanimar a economia com aumento dos gastos públicos, estímulos ao consumo e maior oferta de crédito, modelo que funcionou no segundo mandato do antecessor, mas que se revela esgotado. Além disso o governo vem adotando práticas de maquiagem das contas públicas por meio de temerárias operações contábeis que incluem a retenção de pagamentos a fornecedores, de recursos para obras e até de repasses do Bolsa Família. Ao adiar os gastos, o governo consegue fechar o mês com mais dinheiro em caixa. As contas, porém, terão de ser quitadas – mais cedo ou mais tarde. Na semana passada, Guido Mantega reconheceu a dificuldade de cumprir a meta de 1,9% de economia nas contas públicas. “Este ano teremos o maior superávit fiscal possível”, disse o ministro.

Quando o assunto é economia, o tucano Aécio Neves adota um discurso mais encorpado que suas concorrentes. Logo de cara anunciou o economista Armínio Fraga como futuro ministro da Fazenda e defendeu rigoroso controle dos gastos públicos, além de previsibilidade e segurança, pilares fundamentais para um bom ambiente de negócios. A fórmula do candidato do PSDB pode não ter alavancado de imediato o apoio que ele esperava. Mas na reta final do pleito, Aécio conseguiu encarnar o voto da confiabilidade e da mudança com segurança, o que explicaria a migração de votos para sua candidatura. Suas principais rivais na disputa fizeram o possível para contornar o debate de questão tão fundamental. A estratégia de Dilma foi a de evitar saias-justas, como a que enfrentou em entrevista no programa Bom Dia Brasil, da TV Globo. Marina Silva repetiu conceitos genéricos, mas evitou entrar em detalhes. Quando o fez, acabou expondo suas próprias contradições. Foi assim ao falar em estímulo à indústria e ao agronegócio, ressalvando que o faria de maneira sustentável – só não disse como. Difícil acreditar, considerando seu histórico de luta contra ruralistas. Marina não anunciou ministros, mas se cercou de conselheiros como o economista Eduardo Gianetti da Fonseca e Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú.

A ambiguidade de Marina minou os alicerces de sua campanha no momento mais crucial da eleição, ou seja, nos dias que antecederam a votação. A candidata do PSB chegou a empatar com Dilma nas pesquisas de intenção de voto, figurando como favorita num segundo turno. Mas desidratou nas últimas semanas até aparecer em empate técnico com Aécio. Ao encarnar a bandeira da “nova política”, Marina viu-se enredada em alianças costuradas por Eduardo Campos com tradicionais caciques da política. Rejeitou apoios que depois teve de aceitar. Em entrevistas e debates, revelou posições pessoais conservadores para boa parte de seus seguidores. Divulgou um programa de governo sem revisá-lo, passando a imagem de improviso.

Ao ser questionada sobre algumas de suas propostas, Marina tampouco conseguiu explicar como fará para tirá-las do papel. Prometeu tornar obrigatória a destinação de 10% da Receita Bruta Corrente da União para a saúde pública. A melhoria dos serviços de saúde está no topo das prioridades de 87% dos brasileiros. No ranking internacional que mede a eficiência em 48 nações, o Brasil figura no vergonhoso último lugar. Em países desenvolvidos, os recursos públicos representam 70% dos gastos com saúde - ou 8% do Produto Interno Bruto. Aqui, o dinheiro liberado pelo governo corresponde a 44% das despesas do setor, o que significa 4,6% do PIB.



Segundo especialistas, vincular os 10% da receita é um primeiro passo, mas não o suficiente. É necessário garantir o aumento progressivo do financiamento, combinado com iniciativas que garantam maior eficiência na gestão desses recursos do Sistema Único de Saúde (SUS), com adoção de protocolos internacionais de qualidade. Deve-se estimular a humanização do tratamento, valorizar a mão-de-obra nacional e estabelecer contrapartidas sociais. Além disso, é necessário desenvolver nos municípios ações de prevenção e promoção de hábitos saudáveis, fortalecer a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e exigir das operadoras privadas maior rapidez e qualidade na prestação dos serviços. A aplicação de multas rigorosas aos que não cumprem os níveis de execução fixados inibiria a falta de compromisso com os projetos do governo.

Outro desafio para o próximo presidente está na educação. O Brasil se encontra na “zona de rebaixamento” do ranking internacional do setor por apresentar a menor taxa de escolaridade da América do Sul e o terceiro lugar em evasão escolar no mundo. Essa situação torna urgente a necessidade de uma revolução na área, com atualização da grade curricular para atendimento das demandas da sociedade globalizada e mais investimentos em pesquisas. Recomenda-se, ainda, a adoção de políticas de valorização e capacitação dos professores valorizando-se a meritocracia.

A segurança pública também entrou no topo das urgências. Durante as manifestações de junho de 2013, além da mobilidade, o enfrentamento dessa questão foi elencado como prioridade. A situação atual é assustadora. No Brasil, a violência mata mais por ano do que os grandes conflitos e guerras mundo afora. Só em 2012, foram 56 mil homicídios. A impunidade estimula cada vez mais atos de barbárie coletiva, violência sexual ou de gênero. Especialistas do setor apresentaram aos candidatos uma agenda prioritária que propõe, dentre outras ações, o aumento do orçamento do setor (hoje é 0,46% do PIB) e um novo pacto federativo nesse setor, com maior participação do governo federal.


CLAMOR NACIONAL
A expressão "mudança" nunca esteve tão presente nas ruas do
País como nas manifestações irrompidas em junho de 2013



No quesito infraestrutura, a herança não é das melhores. O País começa 2015 com 102 grandes obras inacabadas, sendo 31 delas consideradas prioritárias. Urge a conclusão dos eixos ferroviários Norte-Sul e Leste-Oeste, a transposição do rio São Francisco, a pavimentação da BR-163 entre Mato Grosso e Pará, a finalização da usina de Belo Monte e da refinaria Abreu e Lima – esta última envolvida no escândalo da Petrobras, com suspeitas de superfaturamento e desvio de dinheiro para políticos. A execução dessas obras serviria para cobrir o gargalo que eleva o custo das exportações e atenderia a crescente demanda por energia e água. Será preciso ainda dobrar o saneamento básico (o Brasil ocupa hoje a 112ª posição no ranking de 200 países) e implementar as promessas de mobilidade urbana que estavam previstas para a Copa. Como revelaram os protestos do ano passado, a sociedade clama por transporte público de qualidade, com custo acessível, que ajude a reverter a situação de colapso do tráfego urbano de grandes e médias cidades.



Os problemas são muitos e os obstáculos maiores ainda. As recentes pesquisas de intenção de voto apontam para a reeleição de boa parte do Congresso Nacional, controlado pelo velho e fisiológico PMDB, e pela liderança na presidenta Dilma na corrida presidencial. Ou seja, um cenário de continuidade de tudo o que está aí. Os últimos movimentos eleitorais, no entanto, deixam claro que o principal partido aliado ao governo e o PT levam considerável vantagem sobre as legendas de oposição, justamente por terem a máquina pública nas mãos e abrirem mão de qualquer pudor em usá-la para se manterem onde estão. Durante a eleição, Dilma realizou reuniões partidárias na residência oficial do Palácio da Alvorada. Também compatibilizou agendas oficiais com eventos de campanha, desfrutando de toda a estrutura governamental. Ao se apegar a práticas políticas e administrativas viciadas, o PT parece ignorar o recado enviado pelas ruas no ano passado. No domingo 5, só o eleitor, na solidão da cabine eletrônica, é capaz de decidir: se quer alterar radicalmente o quadro atual ou promover correções pontuais de itinerário. É a hora de dizer quem, entre Dilma, Aécio e Marina, é o mais preparado para pavimentar o caminho rumo às mudanças tão acalentadas pela população.

CAMPANHA AGRESSIVA


 
ZH 04 de outubro de 2014 | N° 17942


EDITORIAL



A campanha eleitoral não foi nem está sendo edificante, mas sempre é bom lembrar que os conflitos também fazem parte da democracia.Na véspera do pleito que mobiliza 140 milhões de brasileiros para escolher governantes e parlamentares que administrarão o país pelos próximos quatro anos, um balanço da campanha eleitoral nesta primeira etapa, que hoje se encerra nas ruas, aponta para o predomínio da chamada estratégia de desconstrução. A preocupação dos candidatos, no caso, tem sido mais desmerecer os adversários do que assumir compromissos factíveis com o país e com a sociedade. Mais uma vez, perde o eleitor, pois vê assuntos de seu interesse direto serem relegados a um plano secundário por candidatos que preferem privilegiar temas aparentemente com maior potencial de gerar votos, pelo menos na ótica dos marqueteiros.

Em junho do ano passado, quando decidiram sair às ruas para manifestar sua insatisfação com os rumos da condução do país, com baixa qualidade dos serviços prestados e com o mau uso de dinheiro público, os brasileiros deixaram claro o que esperam dos políticos e dos gestores governamentais. Num primeiro momento, as reações de quem representa ou se dispõe a representar os interesses dos cidadãos pareciam encaminhar a política e a gestão pública para uma simplificação e redução de custos e para a busca de prioridades mais afinadas com o cotidiano dos eleitores. Bastou as ruas silenciarem para que todas essas demandas perdessem novamente a condição de prioridade e se transformassem em ataques mútuos, muitas vezes com argumentos tendenciosos ou até mesmo falsos.

Com poucas exceções, no horário político obrigatório, nos debates e nos eventos de rua, os candidatos insistem em falar em tese, recorrem à frieza das estatísticas e a abordagens idealizadas ou distorcidas pela visão crítica no caso de aspirações ligadas ao cotidiano dos eleitores. Entre autoelogios e promessas, aproveitam para disparar críticas aos oponentes, sempre com o interesse de assegurar votos.

A campanha eleitoral não foi nem está sendo edificante, mas sempre é bom lembrar que os conflitos também fazem parte da democracia. Servem, no mínimo, para os eleitores avaliarem quais os candidatos que estão melhor preparados para suportar ataques e para exercitar a transparência quando flagrados em erros. Além disso, cabe reconhecer que até mesmo as farpas mais pesadas ocorreram dentro do limite da civilidade, sem violência nem comportamentos delituosos. Ainda assim, espera-se que, nos casos de segundo turno, o debate seja mais elevado.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

VOTAR É SÓ O COMEÇO



ZERO HORA 3 de outubro de 2014 | N° 17941. ARTIGOS


LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA




A maioria dos cidadãos brasileiros acredita cada vez menos na classe política e, nos dias que antecedem as eleições, as atenções estão voltadas para candidatos, partidos, e corporações envolvidas. Há muitas incertezas sobre o futuro do país, particularmente da economia.

De um lado, a situação, liderada pela candidata à reeleição para presidente e seus partidos (PT e outros). De outro, a intenção da mudança, tendo à frente dois candidatos e seus partidos (PSB e outros, PSDB e outros). O eleitor não aguenta mais o atual estado de coisas e desespera-se, pois o que mais interessa, conduta ética e eficácia dos políticos e suas composições, é o que menos se observa. Anseia pela moralização da política nacional para que o país tenha um processo de desenvolvimento adequado, baseado nas suas potencialidades e necessidades. Exige que a coisa pública não seja tratada com desorganização, imoralidade, loteamento de poder e distribuição de cargos e benesses.

Não se aguenta mais assistir à falcatrua correr solta e, incrivelmente, sob proteção de quem deveria zelar pelo patrimônio público e pela justiça. É preciso dar um basta às influências espúrias dos patrocinadores de campanha que direcionam as decisões mais importantes, geralmente contrárias ao bem comum.

Questões muito relevantes precisam ser feitas neste momento pré- eleitoral. O mais importante é o partido do candidato ou sua capacidade pessoal e liberdade para promover mudanças? Vale a continuação no poder de quem nos últimos mandatos atingiu resultados insatisfatórios e uma vergonhosa crise moral?

O que mais interessa é haver a consciência de que quem assumir terá de fazer o que o Brasil precisa. E tudo começa com respaldo de confiabilidade, agora por um fio. Quem assumir deverá trabalhar muito, com muito equilíbrio. Nada cairá do céu, tudo deverá ser conquistado, com a participação de todos.

Precisaremos escolher bem, trabalhar muito e cobrar a sequência, continuamente, e não apenas daqui a quatro anos. Deveremos, sem tréguas, exercer pressão e estar presentes no local de trabalho dos políticos eleitos. Só assim poderá funcionar.

Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

ÓDIO EM REDE NACIONAL

ZERO HORA 03 de outubro de 2014 | N° 17941. ARTIGO

GABRIEL GALLI



No debate à Presidência da República realizado no domingo (28), o candidato Levy Fidelix (PRTB) se destacou negativamente por destilar um discurso carregado de ódio contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). Entre outros absurdos, afirmou que faz parte de uma “maioria” que deve ir contra as “minorias” e que o aparelho excretor não tem função de reproduzir (reduzindo a homossexualidade a isso e a sexualidade humana a uma máquina de gerar novas pessoas).

O mais simbólico, entretanto, foi quando disse que os LGBTs devem receber atendimento por ter um distúrbio, mas que isso deveria ser feito “longe da gente”.

Como homossexual, é impossível não lembrar das vezes em que eu e meu companheiro já fomos hostilizados na rua por estar de mãos dadas ou por um discreto beijo. Em uma das vezes, uma mulher gritava, no meio da Rua dos Andradas, que era um absurdo dois homens estarem juntos, sem perceber como o absurdo era desrespeitar alguém em via pública.

De quando uma travesti levou pauladas na cabeça ouvindo que “merecia para aprender a ser homem” e o delegado responsável pela região disse que “não existe crime de homofobia” e que “muitos se aproveitam disso para aparecer”.

De quando fui doar sangue pela primeira vez e a atendente me fez assinar um papel em que declarava não ter tido relações sexuais com ninguém do mesmo sexo que o meu.

De quando fiquei chocado ao saber que estudantes de Medicina de uma universidade pública de Porto Alegre disseram que os médicos tinham obrigação de tratar gays erroneamente.

De quando um “amigo” da família disse que eu era assim por não ter apanhado o suficiente quando criança.

Ou de tantas outras formas de tornar pessoas invisíveis, de negar que a vida é mais complexa do que o seu próprio umbigo e que o que você acredita não significa de forma alguma que isso é verdade, mas apenas o que você acredita.

Quem está longe é você, Levy. Longe de entender que o ódio só produz mais ódio e que é por causa de pessoas como você que as mãos sujas de sangue dos agressores são lavadas sem culpa.

Jornalista e militante LGBT

COMPULSÓRIO E ENTEDIANTE



ZERO HORA 03 de outubro de 2014 | N° 17941

EDITORIAL


Raramente a propaganda obrigatória é utilizada por partidos e candidatos para oferecer informações úteis e verdadeiras aos eleitores.

Depois de 45 dias e 87 horas de programação entediante, os brasileiros recebem a partir de hoje uma espécie de trégua do chamado horário eleitoral obrigatório, que recomeça na próxima semana para as disputas de segundo turno. Pesquisa do instituto Datafolha, realizada há dois anos, indicou que mais de 60% da população brasileira considera desnecessária a propaganda compulsória nos meios de comunicação eletrônicos, especialmente por privá-la da escolha de programas em tevê aberta. Os defensores da obrigatoriedade, porém, alegam que esta é a única maneira de acesso massivo aos candidatos e a suas propostas.

Algumas questões precisam ser melhor resolvidas em relação a esse assunto. Em primeiro lugar, a atual legislação permite deformações como as alianças de ocasião e a comercialização do espaço na TV por partidos pouco representativos. Isso gera desproporções e injustiças na repartição do tempo, invariavelmente garantindo privilégios aos partidos que ocupam o poder e que possuem maior poder de barganha para atrair aliados.

Além disso, raramente a propaganda obrigatória é utilizada por partidos e candidatos para oferecer informações úteis e verdadeiras aos eleitores. O que prevalece é a autolouvação, a apresentação parcial de realizações, os ataques a adversários e até mesmo algumas bizarrices, como a dos candidatos paranaenses que neste ano resolveram se apresentar junto com seus animais de estimação, na tentativa de conquistar simpatias.

Se na maioria dos casos a propaganda eleitoral representa um transtorno para o público, o mesmo acontece com os veículos de comunicação, que se veem obrigados a alterar suas grades de programação, perdem audiência e recebem ressarcimento insuficiente na forma de renúncia fiscal, para compensar o que deixam de ganhar com a venda de espaço publicitário.

Trata-se, portanto, de um aspecto do atual sistema eleitoral que precisa ser revisado no âmbito da desejada reforma política. Se o horário eleitoral obrigatório não oferece ao eleitor as vantagens apregoadas por seus idealizadores e ainda implica prejuízos para todos os atores envolvidos, deve, no mínimo, ser aperfeiçoado para as futuras disputas eleitorais.

DEPUTADOS, A ESCOLHA DE ÚLTIMA HORA





ZERO HORA 03 de outubro de 2014 | N° 17941

LETÍCIA COSTA


ELEIÇÕES 2014 JÁ DECIDIU O SEU


Descrença na classe política e grande quantidade de candidatos à Câmara e à Assembleia Legislativa levam eleitores a postergar a decisão do voto até o último momento e inflam o percentual de indecisos.

Sete em cada 10 eleitores do Estado e do país não têm ideia dos números de quatro e cinco dígitos que vão apertar na urna daqui a dois dias. Na Capital, a situação piora. A indecisão está na cabeça de oito em 10 porto-alegrenses, que, em uma pesquisa eleitoral feita em setembro, disseram não saber em quem votar para deputado estadual e federal. Em sua maioria jovens, os eleitores indecisos aliam a descrença na política à enxurrada de nomes que disputam segundos na telinha para cultivar a indefinição. O número de candidatos extrapola as centenas. Só no Rio Grande do Sul, foram registradas 722 candidaturas para deputado estadual e 328 para federal.

– A escolha de representantes na Câmara e na Assembleia é muito mais complicada. A divulgação é muito rápida, as pessoas citam o nome e o número e não têm nem tempo de transmitir uma mensagem mais adequada. Fica muito frustrante – comenta o jornalista Gaudêncio Torquato, consultor político e professor de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP).

Decidir quem vai ocupar uma das 55 cadeiras da Assembleia Legislativa e uma das 31 vagas na Câmara dos Deputados pode ser também uma tarefa ingrata.

– No sistema proporcional, você acaba votando em um e elegendo outro que nem conhece – diz Torquato.

FAMOSOS SE TORNAM OS PUXADORES DE LEGENDA

Isso ocorre porque, ao contrário da eleição majoritária, nem sempre o mais votado ganha. Os deputados são eleitos por meio de uma sequência de cálculos, que levam em conta a soma de votos no partido ou na coligação. Na lista de prioridades do eleitor, a escolha de parlamentares perde força, avalia o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Alexandre Gouveia.

– Nesta eleição, existem muitos cargos à disposição do eleitor. Ele não consegue acompanhar todos, não tem uma noção clara do que todos fazem. O principal é o majoritário e isso faz com que a escolha fique mais centrada para o Executivo – afirma Gouveia.

Pela percepção de que a relevância é menor do que a de um presidente, que vai chefiar e representar uma nação, e por depender de apoio das bancadas para aprovar projetos e emendas, os deputados ficam em segundo plano. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jairo Nicolau diz que muita gente nem sabe o que faz um deputado.

– O Legislativo vive uma fase de muito desprestígio, que se reflete no número de indecisos. Mesmo com tantos nomes, as pessoas têm cada vez mais dificuldade de escolher. A cada eleição só vemos uma redução da importância do Legislativo, um desinteresse da população e propagandas que só jogam a atividade parlamentar para baixo – avalia.

São justamente as propagandas que mais chamam atenção dos eleitores que, segundo especialistas, diminuem o nível de seriedade e a reputação da atividade desenvolvida por um parlamentar. Exemplo unânime é o candidato à reeleição Tiririca (PR-SP). Campeão de votos para deputado federal em 2010, o palhaço conquistou mais de 1,35 milhão de eleitores em São Paulo. Conhecidos como “puxadores de legenda”, os famosos saem em vantagem na corrida pelos votos dos indecisos.

– Os atores de TV, artistas, palhaços, cantores, jogadores de futebol são escolhidos porque o público já tem conhecimento deles. Eles conservam uma certa proximidade com o eleitor – aponta Torquato.




A URNA ESQUECIDA



ZERO HORA 03 de outubro de 2014 | N° 17941


MOISÉS MENDES



Vou contar uma história do tempo antigo, da eleição de 1974, quando não se podia escolher no voto o presidente da República e os governadores. A ditadura não deixava.

Iríamos eleger apenas os deputados estaduais e federais e um senador pelo Rio Grande do Sul. O oposicionista Paulo Brossard (MDB) enfrentava o governista Nestor Jost (Arena).

A meningite espalhava-se pelo Brasil, mas poucos sabiam. Torturavam e era como se ninguém soubesse. Foi nesse ano sombrio de 1974 que aconteceu em Livramento algo excepcional na meia democracia brasileira.

Todas as noites, fechávamos a edição do jornal A Plateia e íamos beber conhaque Dreher, uísque Drury’s ou cachaça com bitter num boteco do início da ladeira da Avenida Tamandaré, depois da esquina da Rivadávia. Gringo Alvim, Santamaria, Basile, Pintinho, Lescano, João David, Wolmer, Sequinho e eu.

Naquela noite de quinta-feira, véspera da eleição de 15 de novembro, Sequinho chegou com um malote de lona embaixo do braço. Largou o malote sobre a mesa e anunciou com orgulho: sou presidente de mesa.

Era chefe dos mesários. Havia recolhido no Foro o material da sua seção, com a urna de votação, cédulas e lista de eleitores. Largou o malote e pediu um conhaque.

Naquele noite, fizemos previsões categóricas sobre o fim do regime militar, que já durava uma década. Cravamos: em dois anos, Brizola e Jango estariam de volta.

Derrubava-se a ditadura em bares com certa facilidade. Não se falava de futebol e de mulher em 1974, só de política. A fronteira transpirava autoritarismo, blefe e medo. O Uruguai também estava sob ditadura.

Foi então que o dono do bar decidiu guardar o malote do mesário Sequinho atrás do balcão. Pouco depois da meia-noite, restavam na mesa Gringo Alvim, Basile e eu. De repente, o dono do bar ergueu as mãos à cabeça e gritou: e agora?

O mesário havia esquecido o malote. Um pedaço da democracia estava ali, sem dono, num ar empestado de álcool e fumaça.

Ninguém sabia onde Sequinho morava. Não havia telefone na maioria das casas, nenhum de nós tinha carro. Derrubar a ditadura era fácil, mas como resolver o problema da urna esquecida? Esparramou-se pelo bar o pavor da cumplicidade.

Seríamos presos como anarquistas que conspiravam com os Tupamaros contra a eleição. Esperamos até perto das 2h para ver se o Sequinho voltava. Nada. Vasculhamos o malote e ali estava, pelo lado de fora, numa etiqueta, o número da seção e o endereço: Colégio Santa Teresa de Jesus.

Só havia uma saída: levar a urna à escola, pela manhã, antes da abertura da porta para a votação. Fomos embora. Ao amanhecer, eu e o Gringo, que morávamos numa pensão, rumamos a pé para a escola, perto do centro. Sentamos no meio-fio.

Aí pelas 7h30min, chegou Sequinho, de bicicleta. Assobiava. Disse que voltara ao bar, que estava fechado. E que foi dormir tranquilo, com a mais absoluta certeza de que levaríamos a urna.

Gringo foi embora e eu peguei o ônibus para Alegrete, onde iria votar. Naquela sexta-feira, feriado de 15 de novembro de 1974, eu ajudei a eleger Paulo Brossard senador e a salvar a urna extraviada com as migalhas da democracia pela metade que eles nos davam.

Conto essa história para dizer: só os que não viveram aqueles tempos se atrevem a desqualificar esta democracia inteira que também os mesários esquecidos da Fronteira ajudaram a conquistar.