VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

terça-feira, 17 de março de 2015

CORRUPÇÃO NÃO NASCEU HOJE, DIZ DILMA

ZERO HORA 16/03/2015 | 18h05

Em coletiva de imprensa, Dilma diz que "corrupção não nasceu hoje". Presidente falou em pacote "anti-impunidade" que governo deve apresentar ao Congresso



Foto: Reprodução / Globo News


Após pronunciamento em que comentou os protestos que movimentaram o país nos últimos dias, Dilma Rousseff atendeu à imprensa. Além de justificar as medidas adotadas no setor econômico e defender os ajustes, a presidente falou sobre o pacote "anti-impunidade" do governo.

— A corrupção não nasceu hoje. Ela não só é uma senhora muito idosa nesse país, como não poupa ninguém — disse a presidente.


De acordo com Dilma, é preciso "vigilância e legislação" para evitar novos casos e punir os corruptos e corruptores. Ela disse, ainda, não temer que os parlamentares barrem o "pacote anticorrupção" divulgado durante a campanha eleitoral e lembrado pelos ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, na noite de domingo, que deve entrar em pauta nos próximos meses:

— O Congresso não tem sido adverso com o meu governo. Sempre foi debatido antes, o Congresso foi bastante, e tem sido, sensível.

Dilma voltou a defender as medidas de ajuste econômico, destacando que o governo não vai "acabar com o crédito", mas "reduzir o nível de subsídios", o que classificou como um período de "contenção". A mandatária admitiu que, apesar dos esforços do governo, "a economia não reagiu".

— Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo. Em qualquer atividade humana se comete erros. O que eu não posso aceitar é ser responsabilizada por algo que seria pior se nós tivéssemos deixado — disse.


A presidente destacou, ainda, que é necessário tratar "todas as instituições" com responsabilidade e classificou como "temeridade" acreditar que "alguém vai ganhar com a instabilização do país".

— É uma ingenuidade política apostar nisso — avaliou, dizendo estar aberta ao diálogo "com quem quer abrir diálogo".

Ao final da entrevista, Dilma disse não estar "fazendo nenhuma confissão", mas admitiu que um dos erros do governo foi deixar as matrículas do Fies a cargo das instituições privadas. Segundo a presidente, o problema "será corrigido".

*ZERO HORA

domingo, 15 de março de 2015

ANTES E DEPOIS DE 15 DE MARÇO



ZERO HORA 15 de março de 2015 | N° 18102


ROSANE OLIVEIRA



Os protestos marcados para este domingo representam um divisor de águas para o recém-iniciado segundo governo da presidente Dilma Rousseff. A partir de segunda-feira, ela terá de dar uma resposta convincente à voz das ruas. Diferentemente dos atos de junho de 2013, com suas bandeiras difusas e a exclusão dos partidos políticos pelos manifestantes, agora o alvo é Dilma e os protestos, contra a corrupção, a crise política e os problemas econômicos. O movimento tem o apoio explícito dos líderes da oposição, entre eles o candidato derrotado na eleição de outubro, Aécio Neves (PSDB-MG), que gravou um vídeo incentivando a participação de seus eleitores.

Depois de o PT menosprezar o panelaço do domingo passado, atribuindo as manifestações à insatisfação da elite, que os militantes petistas chamam de “coxinhas”, o Palácio do Planalto percebeu que não devia brincar com fogo. A própria presidente e o chefe da Casa Civil vieram a público defender a legitimidade das manifestações, desde que sem violência e sem atropelar o processo democrático.

Na segunda-feira, Dilma pronunciou a palavra que até então parecia proibida em seu círculo íntimo: impeachment. Tratou o “fora Dilma” das redes sociais pelo nome que está na Constituição. E disse que não há razão para o impeachment, opinião compartilhada por líderes da oposição, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e por ministros do Supremo Tribunal Federal, como Gilmar Mendes, o mais odiado pelo PT.

A diferença entre o discurso dos governistas e o dos adversários que não veem razão jurídica ou condições políticas para o impeachment é que a oposição acrescenta um advérbio: “ainda”.

Nunca antes a presidente enfrentou protestos em um cenário tão desfavorável. A popularidade baixou ao pior nível desde que assumiu o Planalto, em janeiro de 2011. A economia vai mal, o ajuste fiscal enfrenta resistência no próprio PT e a articulação política cambaleia, mas é a corrupção bilionária na Petrobras o maior problema de Dilma. Com as delações premiadas de protagonistas do esquema de cobrança de propina, abriu-se a caixa de Pandora. Dilma escapou da lista do procurador Rodrigo Janot, mas o PPS resolveu criar um fato político, pedindo ao STF a abertura de investigação contra ela.

Ícone da extrema direita, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) apressou-se em protocolar um pedido de impeachment que não tem como prosperar porque os próprios colegas não levam o parlamentar a sério. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a quem cabe comandar os cordões do processo, reconhece que é prematuro falar em impeachment. Também investigado na Lava-Jato, Cunha, ao contrário do tosco Bolsonaro, é um político cerebral. Sabe que, mesmo sendo o vice Michel Temer o herdeiro natural do cargo em caso de impedimento de Dilma, o melhor para o PMDB – pelo menos no momento – é ser credor da presidente.

Por coincidência, neste domingo completam-se 25 anos da posse de Fernando Collor de Mello no Planalto. Hoje ele é senador, integra a base de apoio do governo Dilma e está na lista dos políticos que serão investigados na Lava-Jato com autorização do Supremo Tribunal Federal.

No momento em que milhares de pessoas se organizam para ir às ruas neste domingo, é inevitável a comparação com o que aconteceu em 1992, mais precisamente no 7 de Setembro, um tempo em que não existia Facebook, Twitter ou WhatsApp, a telefonia celular engatinhava e o então presidente Fernando Collor enfrentava uma CPI desencadeada por denúncias do próprio irmão.

Sabendo que os jovens preparavam manifestações contra ele, Collor foi à TV pedir à população que se vestisse de verde e amarelo. Uma multidão respondeu à convocação vestindo preto. Eleito por um partido nanico, o PRN, sem apoio no Congresso e com as ruas contra ele, Collor perdeu o mandato e entrou para a História como primeiro presidente afastado por impeachment.

Alguma coisa Dilma e o PT aprenderam com Collor. Em vez de medir forças com os manifestantes que querem tirá-la do poder ou fazer seu governo sangrar, a presidente optou por tratar o protesto como um ato democrático e deixar a estratégia de resistência com os aliados. Em Porto Alegre, simpatizantes do governo programaram para a manhã deste domingo um ato satírico, batizado de “Coxinhaço”, durante o qual pretendem assar coxas de galinha em pleno Parque da Redenção, mas, para evitar confronto, a orientação é deixar o local antes da chegada dos manifestantes anti-Dilma, que virão do Parque Moinhos de Vento.

Capitaneados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), movimentos sociais simpáticos ao governo organizaram atos em defesa da Petrobras na sexta-feira. Conseguiram ocupar o espaço nobre dos noticiários da tarde à noite e capas dos jornais de sábado com imagens de manifestantes vestidos de vermelho na Avenida Paulista (São Paulo), na Cinelândia (Rio), na Esplanada dos Ministérios (Brasília) e em outras capitais.

A oposição classificou as manifestações como um fracasso, a CUT divulgou números de participantes divergentes dos cálculos da Polícia Militar, mas o governo celebrou o fato de não ter ocorrido sequer um incidente. Mais do que isso, o governo mostrou que não está sozinho. A convocação do “exército” de João Pedro Stédile, líder do MST, feita pelo ex-presidente Lula, funcionou.

Na véspera, a pretexto de defender a Petrobras e a reforma agrária, militantes da Via Campesina marcharam em Porto Alegre numa manifestação com mulheres e crianças. Stédile se desdobrou: quinta no Rio Grande do Sul, sexta no Rio de Janeiro.

Em Porto Alegre, o principal dirigente do MST apelou a Dilma para que “não se acovarde diante da pressão de setores que querem tomar o poder no grito”, comparou a situação política atual ao período da Legalidade, quando João Goulart foi impedido de assumir a Presidência, e prometeu “botar o povo na rua” depois das manifestações deste domingo.

– Engraxem as botas e as chuteiras, que o jogo só está começando. Quem não tiver barraca compre uma. Compre um tênis. Estamos aqui no vestiário, só nos preparando – avisou.

Stédile pode estar apenas fazendo bravata, mas ficou claro que a estratégia do governo para enfrentar a nau dos descontentes, na qual embarcou boa parte da classe média, é uma aliança com os movimentos sociais. A dificuldade é equilibrar as demandas dos sindicatos com o ajuste fiscal iniciado pelo ministro Joaquim Levy e que a esquerda rejeita por considerar neoliberal.

O DESGASTE DE DILMA






ZERO HORA 15 de março de 2015 | N° 18102


CLEIDI PEREIRA


POLÍTICA AVALIAÇÃO DAS RUAS. Popularidade da presidente tem queda abrupta em dois anos na esteira de corrupção, alta de preços e cortes em benefícios trabalhistas. A demora para reagir ajuda a desgastar a imagem


Em março de 2013, a presidente Dilma Rousseff surfava em uma onda de popularidade. Alavancada pelas políticas sociais, a aprovação da gestão petista atingia índice inédito de 65%. Dois anos depois, o cenário é outro. Reeleita em uma das disputas mais acirradas da história, desgastada pelo escândalo de corrupção na Petrobras e tendo que adotar medidas amargas para tirar o país da crise econômica, Dilma viu a rejeição ao seu governo dar um salto nos últimos meses.

A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada na semana passada, mostrou que 44% dos brasileiros consideram o início do segundo mandato ruim ou péssimo. É a pior avaliação de um presidente desde dezembro de 1999, quando a crise cambial fez a rejeição ao governo Fernando Henrique alcançar 46%, três meses após o pico de 56%.

Especialistas entendem que o desgaste de Dilma, que venceu a eleição com uma diferença de apenas 3,4 milhões de votos, já era esperado, mas a queda abrupta na popularidade surpreendeu. Inflação acelerada, altas na gasolina e na conta de luz e os desdobramentos da Operação Lava-Jato colaboraram para a construção de um cenário de incertezas e frustração. Um prato cheio para opositores, que prometem levar milhares de pessoas às ruas neste domingo.

– Você tem aí uma superposição de uma série de crises, que estão coincidindo no tempo e se alimentando mutuamente – resume Paulo Kramer, do Instituto de Ciência Política (Ipol), da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo o professor, um dos efeitos colaterais da atual conjuntura é o “desempoderamento” do Executivo. Kramer explica que o Congresso tende a se tornar mais “cobrador e agressivo” toda vez que a popularidade de um presidente recua de forma significativa.

Insatisfação superestimada

Para a presidente da Associação Latino-Americana de Consultores Políticos, Gil Castilho, Dilma também errou ao demorar para se posicionar, pois “qualquer crise merece uma resposta rápida”. Além disso, conforme a consultora, a petista não costuma passar segurança quando fala:

– Do ponto de vista da imagem e da comunicação, faltou essa presença de governante, de estadista que deveria assumir as rédeas da nação em um momento de crise.

O sociólogo Brasílio Sallum Júnior, da Universidade de São Paulo (USP), cita como agravantes da crise os conflitos internos no PT e a contradição entre o discurso de Dilma na campanha e as medidas adotadas ainda no fim do primeiro mandato, como a medida provisória que alterou as regras de concessão de benefícios trabalhistas.

No entanto, ele afirma que a insatisfação da sociedade está um pouco superestimada. Conforme o professor, a vitória da petista se deu muito em função da maioria que ela obteve nas camadas sociais de até 2,5 salários mínimos, mas “quem se manifesta na vida pública, quem tem voz e capacidade de mobilização, em geral, está acima desses níveis de renda”:

– É uma situação realmente difícil para a presidente, mas, acima de tudo, é difícil para o Brasil.


Economia é limitador para melhorar imagem

Quase ninguém arrisca um palpite sobre o que deve acontecer nos próximos meses. As únicas certezas são as de que a crise econômica deve se arrastar e a reconstrução da popularidade da presidente Dilma Rousseff não será tarefa fácil.

Segundo o cientista político Valeriano Costa, da Unicamp, para sair da crise, a presidente terá de recompor a base de apoio e reforçar a agenda positiva. Mas ele reconhece que a situação é complexa, pois existe o risco de o PMDB migrar para a oposição, dependendo do andamento da CPI da Petrobras. Além disso, a situação econômica do país pode ser um limitador para a agenda positiva.

– Dilma precisa rapidamente mostrar que o governo está funcionando. Se tiver uma agenda positiva, o Congresso respira e começa a reduzir o grau de tensão. É um jogo que vai depender de muita habilidade dela e do seu grupo – afirma o cientista político, lembrando que a presidente já começou o trabalho com a base, trazendo outros ministros, como o gaúcho Eliseu Padilha (PMDB), para a articulação política.

Professor da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, Michael Mohallem acha que, pelo que o cenário atual indica, a turbulência deve ser passageira. Segundo ele, se as medidas econômicas surtirem efeito, o quadro pode melhorar.

– Menosprezar, achar que o governo não vai reagir, parece simplista – acrescenta.

Apesar de manifestações favoráveis ao impeachment da presidente, que circulam pelas redes sociais e devem marcar presença nos protestos deste domingo, analistas acreditam que esta é uma possibilidade muito remota.

– O impeachment é um instrumento previsto na Constituição. Agora, o uso do impeachment nem sempre é constitucional, e o uso nesta conjuntura seria inconstitucional – diz Mohallem.

O tema também divide a oposição. Na semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que um eventual impeachment de Dilma não adiantaria nada. Para o cientista político da Unicamp, Valeriano Costa, a oposição dificilmente irá querer correr o risco de ficar marcada como “golpista” e inviabilizar uma possível eleição em 2018. De acordo com o professor, a estratégia, como já anunciado pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), será de fazer a presidente sangrar. Costa, contudo, diz não ter certeza sobre essa capacidade da oposição, tendo em vista que “esse jogo não é um jogo de um lado só”:

– O cenário é de incerteza, porque depende de muitas variáveis que não estão na mesa.

Ainda tem muita água para rolar, e o que aflige políticos e analistas é que não se sabe exatamente de onde ela virá.

sábado, 14 de março de 2015

FARSA NA CPI



ZERO HORA 14 de março de 2015 | N° 18101
 


EDITORIAL




Foi constrangedora para os políticos a verdadeira farsa em que se transformou o depoimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, na CPI da Petrobras. Depois de quatro horas de bajulações por parte dos parlamentares que deveriam inquiri-lo sobre sua participação no episódio de corrupção, tudo o que ficou foi o esforço de Cunha, apoiado por seus pares, para desmerecer o trabalho da Procuradoria-Geral da República. Como se atacar o procurador, que se baseia nas delações dos que distribuíam propinas, fosse justificativa suficiente para os malfeitos. O diversionismo não deve prosperar, apesar do evidente apoio corporativo a um dos listados como beneficiários do esquema na estatal.

Nada surpreende em relação ao depoimento do suspeito, até porque sua trajetória é no mínimo controversa. O presidente da Câmara é o protagonista de mais de 20 processos por envolvimento em episódios delituosos. Sua eleição para o comando da Casa foi, nesse contexto, mais um acinte do parlamento, que ignorou noções básicas de bom senso e ética. Ao tomar a iniciativa de se apresentar à CPI, o político sabia que teria uma recepção calorosa de colegas de todos os partidos. Criticou o procurador- geral, bajulou os que iriam depois aplaudi-lo e acabou por tentar desqualificar o trabalho da polícia, do MP e da Justiça.

O mais deplorável é que integrantes da CPI que deveria reforçar o trabalho das instituições adotaram postura inversa, tudo em nome do espírito de corpo. Depois do teatro de Eduardo Cunha, a comissão tem a obrigação de mostrar que foi criada para esclarecer, e não para ajudar a confundir ainda mais.

quinta-feira, 12 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO



ZERO HORA 12 de março de 2015 | N° 18099


DAVID COIMBRA



Existe sorte? José Sarney é homem de sorte. Mas tem talentos também, é inegável. Se você conversar muito tempo com ele, talvez acabe convertido. Trata-se de um tipo agradável, meio bonachão, de boa fala. Um suave intelectual.

Uma vez, o Sarney, ao visitar Porto Alegre, disse que leu alguns de meus livros, e os elogiou. Maldição! Como é que eu ia criticar o Sarney, depois daquilo?

Não, não, do Sarney, hoje, prefiro dizer apenas que é homem de sorte.

Trinta anos atrás, num 15 de março como o que se aproxima, Sarney provou sua sorte.

Quem então não era jovem ou adulto talvez não entenda o que aquela época significou para o Brasil. Onze meses antes, em abril de 84, a população havia se mobilizado para pedir eleições diretas para presidente. Lembro do comício de Porto Alegre. Eu e o Sérgio Lüdtke trabalhávamos na Livraria Sulina. Compramos camisetas amarelas da Hering e escalamos a Borges até a Praça 15 para ver Ulysses, Tancredo e Brizola discursando. A cidade fremia, o Brasil rugia.

Mas depois, no dia da votação, o general Newton Cruz montou num cavalo branco e mandou a soldadesca cercar o Congresso, e a emenda das diretas foi derrubada.

Tudo bem, pelo menos o presidente seria um civil. Os militares haviam decidido se retirar para os quartéis e a eleição se daria dentro do Congresso. Aí, nova ameaça surgiu: Paulo Maluf lançou sua candidatura, e era uma candidatura agressiva, rica, poderosa. Mas a velha raposa mineira, Tancredo Neves, o derrotou de sobejo.

Ufa.

Os idos de março chegaram, enfim. E quem subiu a rampa do Planalto, ao som de trombetas, em vez de Tancredo? Justamente o Sarney! Como assim? Sarney não tinha vindo da velha UDN? Não era o líder da Arena? O interlocutor dos militares?

Era.

Entrou na chapa de Tancredo na última hora e acabou sendo ele o presidente da República.

Enquanto Sarney era empossado, Tancredo agonizava no Hospital de Base. Nós ficávamos esperando os boletins médicos divulgados pelo Antônio Britto, que era o assessor de imprensa de Tancredo. Tancredo melhorou, Tancredo piorou, Tancredo está estável.

Tancredo morreu.

No dia 21 de abril, Britto anunciou a morte de Tancredo e o Brasil inteiro caiu em lágrimas. A TV ficava mostrando aquele caixão carregado por um carro do Corpo de Bombeiros, e tocando Coração de Estudante, do Milton. Foi uma comoção. Uma choradeira.

Não chorei, talvez por cinismo. Não acreditava que Tancredo fosse “salvar” o Brasil, não acreditava e não acredito que algum homem, algum partido ou alguma classe possa “salvar” qualquer país. Nenhum país pode ser “salvo”, na verdade. Nenhum país, jamais, em tempo algum, em qualquer parte do mundo foi “salvo”. Não existem salvadores, protetores dos pobres, defensores dos oprimidos. São todos mentirosos. Todos.

Só existe uma maneira de um país “se salvar”: é pelo cumprimento do acordo social, pela aceitação das regras por toda a comunidade. Pela lei.

Sarney assumiu nos idos de março de 1985. Nos idos de março de 44 a.C., Júlio César levou 23 punhaladas aos pés da estátua de Pompeu. Nos idos de março de 2015, o Brasil sairá às ruas em protesto contra um péssimo governo. O que restará destes idos de março? Seja o que for, espero que esteja dentro da lei. Porque a História já mostrou: com a sorte, nós não podemos contar.

quarta-feira, 11 de março de 2015

DILMA É VAIADA NA ABERTURA DE EVENTO



ZERO HORA 11 de março de 2015 | N° 18098


DAS REDES SOCIAIS PARA AS RUAS


Durante um curto período de tempo em que visitou os estandes do 21º Salão Internacional da Construção, em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff foi vaiada na manhã de ontem. Ainda fechado ao público, o evento, que ocorre no pavilhão de exposições do Anhembi, era ocupado somente por empresários e funcionários do segmento da construção civil.

Diante da reação do público, que gritou palavras de ordem como “fora Dilma” e “fora PT”, a presidente percorreu apenas uma pequena parte da exposição e, mostrando desconforto, voltou ao carro e seguiu para o auditório onde participou da solenidade oficial de abertura do salão. Com capacidade para 799 pessoas, o local não tinha metade da lotação.

Ao iniciar o discurso, Dilma disse que reconhecia o momento difícil pelo qual passa a economia e os impactos sobre o setor:

– Tenho trabalhado para superarmos a desaceleração pela qual passa a construção civil.

A presidente acrescentou que o governo está tomando importantes e necessárias medidas de correção:

– Os fundamentos são sólidos – afirmou, estimando que até o final do ano, resultados positivos deverão aparecer na economia do país.

Dirigindo-se diretamente ao empresariado, a presidente pediu que “não deixem as incertezas conjunturais determinarem a sua visão de futuro”. Segundo a presidente, sem a ajuda do empresariado, o governo não conseguirá avançar nas suas propostas. Antes de falar, Dilma ouviu as preocupações do setor com a economia e com os impactos do escândalo de corrupção na Petrobras. Sem citar diretamente a Operação Lava-Jato, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), Walter Cover, disse que é preciso punir quem merece ser punido, mas também buscar uma solução “institucional” para não paralisar pequenas e médias empresas.

Foi de Cover o discurso mais crítico à atual conjuntura. Ele disse que o empresariado apoia o ajuste nas contas de forma “pragmática”, mas que é “absolutamente necessário” que ao lado dessas medidas o governo busque soluções para aumentar a produtividade e a competitividade no país.

A QUEDA DE DILMA



ZERO HORA 11 de março de 2015 | N° 18098


DAVID COIMBRA


Dilma parece à beira do abismo. Parece que Dilma vai se atirar.


Olhando à distância, aqui do Norte, é essa a impressão. A triste impressão. A não ser que a presidente e seus auxiliares compreendam o que está acontecendo. E, pelo discurso governista, é evidente que não estão entendendo nada. Nem ela e, surpreendentemente, nem Lula, um dos políticos mais sensíveis da história do Brasil.

É que, às vezes, o detalhe decisivo é isso mesmo: só um detalhe. Porém, decisivo. No caso, há que se levar em consideração um objeto pequeno, do tamanho da palma da mão: o telefone celular.

Essa ferramenta mudou o mundo. A história do homem é a história da velocidade da informação, e nunca, em 12 mil anos de civilização, a informação foi tão veloz. Desde os albores do século 21, o celular dotado de internet permite que as pessoas absorvam e transmitam informação a todo momento, obsessivamente, ansiosamente, num processo que é interrompido apenas pelas horas de sono. A transformação não ocorre mais na poeira dos séculos, nem de ano para ano. Ocorre em meses.

O Brasil que está ingressando no outono de 2015 não é o mesmo da primavera de 2014.

Agora vou me lembrar de antes. De uma noite carioca de 2007. Oito anos, transcorridos no século 21, correspondem a uma geração inteira. Pois em 2007 Lula foi vaiado por 80 mil pessoas no Maracanã, durante a abertura do Pan. No dia seguinte, escrevi o que escreveriam hoje os governistas: “Foi a vaia da elite branca”.

Não me arrependo do que escrevi. Em 2007, Lula começava o segundo mandato. Pensei, então: a partir de agora, com a estabilidade econômica e o assentamento dos programas sociais, Lula terá condições de fazer as mudanças estruturais de que o país precisa – essa vaia é precipitada.

Ainda acho que foi precipitada. Mas foi também premonitória. Aos poucos, o que a elite branca sentiu naquela noite passou a ser sentido por outros setores da sociedade. As pessoas não estavam vivendo bem no Brasil, simplesmente isso. Há dois anos, num junho furioso, o desconforto latejante explodiu, só que em todas as direções, sem alvo preciso. Nas eleições do ano passado, essa insatisfação tornou-se amarga, mas as pessoas ainda não sabiam para onde fugir, porque os caminhos alternativos não eram bons. De lá para cá, o sentimento mudou: virou revolta.

O grande engano do governo, o grande engano de analistas inteligentes, como Juca Kfouri e Verissimo, é não perceber a rapidez dessa mudança. É achar que estamos em 2007. Porque, não: não é só a elite branca que está vaiando o governo. Não são só os ricos. É uma massa gigantesca de trabalhadores, de empresários e assalariados, de gente que produz e contribui. E quer saber? Essa gente está pouco se lixando para o PSDB ou para o Aécio Neves. Essa gente não é patrocinada pela oposição, não é mobilizada pela mídia burguesa e tampouco está indignada porque a classe média viaja de avião. Essa gente está vivendo mal no Brasil. Essa gente sente insegurança nas ruas, sabe que os professores de seus filhos ganham pouco e paga promessas e planos de saúde para não depender do SUS. Junte isso à corrupção que borbulha dos esgotos de Brasília e a uma presidente desconectada com a realidade e teremos, sim, ambiente para abalar um governo.

Sou contra o impeachment sem provas concretas de ilícito da presidente. Pedir impeachment porque a vida não vai bem é golpe. Mas, se o governo não reconhecer pelo menos que a vida não vai bem, a vida decerto vai piorar. Tudo vai piorar. Inclusive, e principalmente, para o governo.