ZERO HORA 03 de agosto de 2015 | N° 18246
CLEIDI PEREIRA
Colaborou Débora Ely
ATRASO SALARIAL NO RS. SEGUNDA-FEIRA DE EXPECTATIVAENTIDADES
QUE REPRESENTAM servidores públicos prometem parar hoje em rechaço à
decisão do Piratini de parcelar salários acima de R$ 2.150. Associações
da BM e do Corpo de Bombeiros decidiram pelo aquartelamento, mas comando
diz que tudo tem limite. Governo afirma que manifestações são legítimas
e pede compreensão
Em protesto contra o parcelamento de
salários que atingiu 47,2% do funcionalismo, servidores públicos
estaduais prometem cruzar os braços nesta segunda-feira, batizada de Dia
da Indignação. Apesar de a mobilização colocar em xeque a prestação de
serviços essenciais, o Palácio Piratini não tem uma estratégia definida
para enfrentar a paralisação e minimizar os impactos de uma possível
greve generalizada. Policiais militares (PM) já deram largada na
operação-padrão no final de semana, e há a possibilidade de escolas não
abrirem as portas. Bombeiros, policiais civis, agentes penitenciários e
funcionários da saúde também estão entre as categorias que devem aderir
ao protesto.
O governo do Estado admite que o cenário não será o
de serviços “100% dentro da normalidade”. No entanto, segundo o
secretário-geral de Governo, Carlos Búrigo, a aposta continuará sendo no
diálogo e na compreensão por parte das categorias que ganham acima de
R$ 2.150 e tiveram seus vencimentos de julho divididos em três parcelas
(veja tabela ao lado). Braço direito do governador José Ivo Sartori,
Búrigo disse que as manifestações são legítimas e que o Piratini
“respeita a posição e entende a situação difícil que os servidores estão
enfrentando”.
– O governo teve de parcelar salários não por sua
vontade. Ninguém faz um ato desses porque quer e, sim, por necessidade.
Não há recursos, e isso é um fato. Então, temos de somar esforços e
dialogar para que possamos, de maneira ordeira, encontrar uma saída.
Esperamos que os servidores entendam, pois a paralisação não vai ajudar
em nada, só vai dificultar ainda mais a situação – avaliou.
Questionado
sobre medidas que podem ser adotadas em caso de agravamento da
paralisação, o secretário afirmou que a cúpula do Executivo não trabalha
com tal hipótese, mas avisou que, se isso acontecer, serão feitas
“avaliações internas” para decidir os próximos passos. Ele não descartou
a possibilidade de acionar a Justiça. A prioridade agora, conforme o
secretário, é finalizar o pacote de medidas para lidar com a crise
financeira do Estado que será enviado para Assembleia até a próxima
sexta-feira.
– Entendemos que nenhuma ação radical de qualquer
parte – nossa ou dos servidores – vai fazer com que o cenário mude de um
dia para o outro. Sabemos que a culpa não é do servidor, porém, nosso
maior gasto é com a folha. Infelizmente, não temos como escolher não
pagar outra coisa, já não estamos pagando fornecedores. Os servidores
também têm que se colocar no nosso lugar.
COMANDANTE-GERAL AFIRMA ESTAR MUITO PREOCUPADOEntre
as áreas afetadas pelo movimento, a mais sensível é a da segurança
pública. Servidores da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros decidiram
pelo aquartelamento e, em uma nota, chegaram a pedir que a população
permaneça em casa no dia de hoje. O comandante-geral da BM, coronel
Alfeu Freitas Moreira, que passou o domingo no QG da corporação, admitiu
estar “muito preocupado”. No entanto, destacou que, por enquanto, não
há nenhum indicativo de que a situação poderá sair do controle.
–
Existe uma regra, tudo tem um limite. Aquilo que for ilegal ou
irregular, com certeza, será punido. Estamos acompanhando, monitorando, e
é prematuro falar em qual vai ser a redução – disse ele, lembrando que
os militares são proibidos constitucionalmente de suspenderem suas
atividades.
No final de semana, em Porto Alegre, Pelotas e
Santana do Livramento, PMs se recusaram a sair com viaturas em situação
irregular, como problemas mecânicos ou documentação vencida (leia na
página 10). Conforme Freitas, o policiamento não foi prejudicado, pois
os agentes utilizaram outros meios.
A direção do Sindicato dos
Trabalhadores em Empresas de Transporte Coletivo Urbanos de Passageiros
de Porto Alegre se reuniria na madrugada desta segunda para definir se a
categoria também paralisaria os serviços. O motivo para os 8,6 mil
rodoviários não trabalharem seria a falta de segurança devido ao
possível aquartelamento dos PMs. O sindicato informou que, se a ameaça
dos policiais se cumprisse, os rodoviários seriam orientados a não
deixarem as garagens das empresas de transporte na Capital.
Sem segurança, bancos podem fechar as portasUma
liminar, deferida ontem pela Justiça do Trabalho, permite que os bancos
não abram hoje, caso não haja policiamento nas ruas em função da
paralisação dos servidores da segurança pública. A decisão vale para
todo o Estado e foi concedida após ação judicial movida pelo
SindBancários e pela Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em
Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul (Fratrafi-RS).
Segundo
as entidades, há preocupação com a segurança dos servidores e clientes
devido à promessa de sindicatos de que não haverá policiais nas ruas, em
protesto contra o parcelamento de salários. Apesar da liminar, a
orientação é que os funcionários compareçam aos bancos para que sejam
avaliadas as condições de trabalho e para verificar se há a necessidade
de dispensar os trabalhadores.
– Nossa preocupação é com a
segurança de colegas e clientes. A decisão judicial reconhece o risco de
abrir uma agência bancária sem polícia nas ruas. O Judiciário teve
sensibilidade para reconhecer que há muitos riscos envolvidos. Esperamos
que os bancos tenham a mesma sensibilidade e dispensem os trabalhadores
– disse o presidente do SindBancários, Everton Gimenis.
A
entidade informou que alguns diretores estarão circulando pelas ruas de
Porto Alegre desde as primeiras horas da manhã para avaliar se haverá
segurança para manter as atividades normais nas agências. De acordo com o
levantamento do SindBancários, desde o início do ano até o dia 31 de
julho, foram 124 ataques a bancos da Capital. São 11 ocorrências a mais
do que no mesmo período do ano passado.
– Toda semana há casos de
ataques a bancos com todo o tipo de violência. E isso que temos
garantia de policiamento ostensivo. Nossa preocupação é que não haja
policiamento, e os bancários fiquem ainda mais vulneráveis – acrescenta
Gimenis.
CAETANNO FREITAS
Operação-padrão da BM e policiamento restritoPrevista
inicialmente para hoje, a paralisação dos servidores da segurança
pública foi antecipada e teve adesões em pelo menos oito municípios no
final de semana. Foram registrados protestos devido ao parcelamento dos
salários em Candelária, Caxias do Sul, Novo Cabrais, Pelotas, Porto
Alegre, Santa Maria, Santana do Livramento e Santiago.
Na
Capital, em Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, e em Pelotas, na
Zona Sul, policiais militares iniciaram uma operação- padrão e se
recusaram a sair com viaturas em situação irregular, como problemas
mecânicos ou documentação vencida. Em Livramento, todas as viaturas da
cidade estavam com algum problema, e os agentes fazem o policiamento
apenas a pé. Houve confusão em Porto Alegre e Livramento, com ameaça de
prisão aos policiais que se negaram a sair, mas a situação foi
contornada.
– A Constituição diz que a gente não tem direito de
fazer greve, então a gente faz tudo dentro da legalidade, e não sair com
viatura irregular faz parte disso – afirmou o presidente da Associação
de Cabos e Soldados de Pelotas, Neimar Lima.
Em Caxias do Sul, na
Serra, familiares de policiais e servidores da Brigada Militar fizeram
uma manifestação em frente à sede do 12º Batalhão de Polícia Militar
(12ºBPM), no bairro Kayser. Um grupo tentou impedir a saída de policiais
para o patrulhamento da cidade. A ausência de policiamento nos
arredores do Estádio Alfredo Jaconi provocou uma série de tumultos nas
horas que antecederam o jogo entre Juventude e Brasil de Pelotas, no
sábado. A delegação do Brasil chegou ao estádio sem qualquer escolta.
Simone
Dandolini de Souza, 35 anos, mulher de um policial, foi ao protesto
para manifestar seu descontentamento com o parcelamento do salário dos
servidores:
– Também gostaríamos de honrar com os nossos
compromissos porque as contas chegam. A comunidade toda deveria estar
aqui apoiando a Brigada Militar.
Ainda foram registrados
protestos em rodovias na região Central. Em Santiago, pneus foram
queimados e um boneco vestindo farda da BM foi pendurado às margens da
BR-287. Outros dois bonecos também foram avistados na BR-158, em Santa
Maria, onde uma faixa dizia “Se não pagar, a BM vai parar. Governo
terrorista”. Em Novo Cabrais e Candelária, na RSC-287, houve queima de
pneus.
PMs evitaram viaturas com documentação irregularUma
pilha de escudos transparentes e capacetes laranja ao pé de uma árvore
chamou a atenção de quem passou ontem pelo Parque Marinha do Brasil, em
Porto Alegre. A cena foi um dos reflexos da paralisação dos servidores
da segurança pública em protesto contra o parcelamento de salários –
anunciada para hoje, a mobilização já limitava o trabalho da Brigada
Militar (BM) um dia antes.
Segundo o presidente da Abamf –
associação que representa servidores de nível médio da corporação –,
Leonel Lucas, os policiais receberam orientação para não irem à rua com
viaturas que não estivessem regulares, tanto por falhas mecânicas quanto
por falta de licenciamento. Em razão da medida, a Companhia de
Operações Especiais do 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Porto
Alegre, que faz a segurança no entorno do Beira-Rio em dias de jogo, não
teve transporte disponível para o trabalho durante o empate entre Inter
e Chapecoense. Os 24 homens percorreram os cerca de dois quilômetros do
batalhão, na esquina das avenidas Ipiranga e Praia de Belas, até ao
estádio a pé, e tiveram de deixar o equipamento utilizado para contenção
de tumultos escorado ao pé da árvore – normalmente, escudos e capacetes
ficam guardados nos veículos.
– Infelizmente, elas (as viaturas)
estavam circulando com documentação vencida, mas, hoje (ontem) as
equipes disseram que não iam mais rodar dessa maneira, não podemos
obrigar – afirmou o comandante da Companhia, tenente Admar Rodrigues.
O
major Rodrigo Mohr, responsável pelo 1º BPM, disse que a companhia
conta com cinco viaturas, um micro-ônibus e 16 motos, mas admite que
apenas duas motocicletas estão com licenciamento em dia. Além disso, os
mais de cem policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOE) da BM,
responsável pela segurança dentro do estádio, foram transportados em
veículos emprestados pela Academia de Polícia.
Conforme a Abamf,
na Capital, 19º BPM e 20º BPM não tiveram nenhuma viatura em circulação
ontem. O 11º BPM e o 21º BPM tiveram apenas um carro na rua, em cada
unidade. No Interior, as cidades de Santana do Livramento e Quaraí
ficaram sem veículos. Uruguaiana e Bagé mantiveram uma viatura em
operação e Santa Maria, três.
Até ontem, a BM não tinha a
informação de quantas viaturas estavam com documentação irregular. Em
nota, o comandante-geral da BM, coronel Alfeu Freitas Moreira,
determinou que toda viatura com problemas não saia para o serviço. “Os
policiais militares irão trabalhar utilizando outros meios de
transporte”, afirmou o oficial. Ele garantiu também que não serão
repelidas manifestações junto aos quartéis.
