VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

terça-feira, 18 de março de 2014

NO SENADO, DESPESAS COM VIAGEM DISPARAM


No Senado, despesas com viagens disparam e sobem 148%. Gastos com deslocamentos nacionais e internacionais somaram R$ 499 mil em 2013, mais que o dobro de 2011

CHICO DE GOIS 
O GLOBO
Atualizado:18/03/14 - 7h44

Petista Jorge Viana vai com frequência à Nova York Ailton de Freitas / O Globo


BRASÍLIA — Levantamento realizado pelo GLOBO na página da Transparência do Senado mostrou que os gastos com pagamentos de diárias a senadores em viagens nacionais e, sobretudo, internacionais subiram 148 % entre 2011, início da atual legislatura, e 2013. No mesmo período, a inflação acumulada medida pelo IPCA — índice que embute a conta “serviços” — foi de 19,38%. Em público, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fala em reduzir despesas.

Em 2011, o Senado pagou R$ 201,1 mil para que seus parlamentares pudessem se hospedar e se alimentar nos quatro cantos do mundo — sem considerar os pagamentos de passagens aéreas, que são custeadas diretamente pelo Senado ou, em alguns casos, pelos governos ou instituições que convidam os parlamentares a visitá-los. Em 2012, foram R$ 375 mil e, no ano passado, R$ 498,8 mil.

Para se afastar do país, o senador precisa de autorização do plenário da Casa, mas, na maioria das vezes, a aprovação é dada sem que haja qualquer debate sobre a importância do evento e agenda da viagem. A mesma coisa acontece no retorno do parlamentar: ele precisa apresentar um relatório do que fez no exterior, mas, como o controle sobre as atividades parlamentares não é dos mais rígidos — muito pelo contrário —, o viajante limita-se a narrar fatos aleatórios sobre suas andanças.

Há casos em que senadores passearam por quase 20 dias em um país europeu, e, na volta, a prestação de contas limitou-se a um discurso de cerca de três minutos, citando apenas algumas cidades onde estiveram e o nome de uma ou outra autoridade.

Um dos destinos mais frequentes dos senadores é Nova York. E, para visitar a cidade, há uma desculpa perfeita: a Assembleia Geral da ONU, que tem abertura entre setembro e outubro, mas que se estende até fevereiro do ano seguinte.

Um dos mais frequentes nessa rota é Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). Desde 2010 ele viaja anualmente para lá como observador parlamentar. No ano passado, recebeu R$ 6.901 pelo pagamento de sete diárias.

Os painéis na ONU são muito diversificados. Há debates ou informes desde processos na Corte Internacional de Justiça contra pessoas acusadas de genocídio até a importância do esporte como uma forma de fazer um mundo mais pacífico e melhor. É só escolher algum tema, passar pela sala e assistir.

O vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), é outro que vai com frequência a Nova York. No ano passado, ele recebeu R$ 8.798 como pagamento de nove diárias para participar da Assembleia Geral da ONU. Mas Viana esteve na cidade antes do início do evento e saiu justamente no dia oficial da abertura, que é tradicionalmente marcada pelo discurso do presidente brasileiro. No caso, da presidente Dilma Rousseff.

Nos tempos em que era considerado um dos principais vestais do Senado, Demóstenes Torres, cassado em julho de 2012 por envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, também visitou Nova York. Entre 6 e 16 de outubro de 2011, recebeu 11 diárias, no valor de R$ 8.785, para atuar como observador parlamentar na ONU.

Congressistas afirmam que estavam em missões oficiais. Eles dizem que agendas são importantes para o mandato e aprovadas

CHICO DE GOIS 
O GLOBO
Atualizado:18/03/14 - 7h45


BRASÍLIA — Os senadores afirmam que viajam para o exterior em missões oficiais que são importantes para seus mandatos. Além disso, destacam que as viagens são aprovadas pelo plenário do Senado e que, na volta, sempre prestam contas.

A assessoria do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) apresentou cópias dos Diários do Congresso em que o parlamentar faz relatórios de suas visitas à ONU. Além disso, informou que anualmente o Itamaraty convida senadores a participarem da Assembleia Geral na qualidade de observadores parlamentares. Cabe ao presidente do Senado indicar quem viajará.

Jorge Viana (PT-AC) informou, por meio de sua assessoria, que, como vice-presidente do Senado, muitas vezes é designado para representar a Casa em missões oficiais, uma vez que o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL), por conta de suas atribuições, pouco sai do país. Sobre a viagem à ONU no ano passado, a assessoria afirmou que o senador acompanhou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, uma das agraciadas com o prêmio Campeões da Terra, que ocorreu no Museu de História Natural.

De acordo com a assessoria de imprensa do senador Acir Gurgacz (PDT-RO), o parlamentar esteve na Polônia porque é o presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Polônia. Quando retornou ao Brasil, Gurgacz fez um rápido discurso na tribuna no qual informou que participou de “uma série de debates e reuniões no Parlamento polonês, nas comissões de Agricultura e Meio Ambiente, no Ministério da Economia e na Câmara Econômica Nacional, em Varsóvia”.

— Foram boas discussões que, com certeza, trarão resultados positivos para a relação entre os dois países. Estamos distantes geograficamente, mas temos muito em comum. Polônia e Brasil passaram bem pelos efeitos da crise econômica internacional porque temos políticas sólidas — discursou Gurgacz.

Visita à Escola de Medicina

Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) afirmou, também por meio de sua assessoria, que foi a Cuba porque integra o grupo parlamentar Brasil-Cuba. Na viagem, além da visita ao Parlamento cubano, visitou a Escola Latinoamericana de Medicina, onde muitos brasileiros estudam. A assessoria do senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) foi procurada, mas não retornou a ligação.

A assessoria de imprensa do líder do DEM, José Agripino (RN), informou que ele foi a Suécia acompanhado do presidente da Comissão de Relações Exteriores, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), e do líder do PMDB, Eunício Oliveira (PMDB-CE), a convite do governo sueco. Após a viagem, ele narrou encontros que manteve, incluindo a visita à fábrica da SAAB, que irá vender os caças à Força Aérea Brasileira (FAB):

— Eu vejo, portanto, enormes vantagens (na compra dos Gripen). É claro que essa é uma primeira visita, os contatos foram restritos a autoridades da Suécia. Eles me convenceram, mas é apenas parte de um processo. Cabe, é claro, ao governo do Brasil fazer a avaliação entre os contendores que estão escolhidos, mas a minha opinião, e é a sensação que trago, é de que a operação com o Gripen deve ser vista com lente de aumento, tendo em vista o interesse imediato e o interesse permanente que o Brasil pode tirar de uma compra que resultará em uma parceria venturosa e promissora para a indústria aeronáutica do Brasil.

Cuba é destino comum de parlamentares do PCdoB. Viagens a convite de governos também são frequentes

CHICO DE GOIS
O GLOBO
Atualizado:18/03/14 - 7h46


BRASÍLIA — Embora roteiro frequente, os Estados Unidos não são o único destino escolhido pelos senadores. Os comunistas, por exemplo, gostam de visitar Cuba. Em 2011, a senadora Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) fez uma visita de cinco dias à ilha e recebeu R$ 3.744 de diárias. Foi acompanhada dos colegas Lídice da Mata (PSB-BA) e Valdir Raupp (PMDB-RO), que levou a mulher, a deputada federal Marinha Raupp (PMDB-RO). Eles integram o grupo parlamentar Brasil-Cuba.

Inácio Arruda (PCdoB-CE) também foi a Cuba em fevereiro do ano passado. Deu uma passada por lá e pelo Haiti e, em janeiro deste ano, voltou para participar da Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos. O evento é destinado aos chanceleres dos 33 países-membros, que preparam a reunião dos presidentes.

Poucos dias antes de deixar o cargo, o então senador José Nery (PSOL-PA) recebeu R$ 5.096 de pagamento por sete diárias para ir visitar a ilha dos irmãos Castro. Motivo alegado: visita oficial ao Legislativo cubano. A viagem ocorreu entre os dias 15 e 21 de janeiro de 2011. Em 1º de fevereiro, Nery deixou de ser senador.

O senador Acir Gurgacz (PDT-RO), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Polônia, criado em 2003, ficou 18 dias viajando por aquele país e recebendo diárias de R$ 15 mil. A viagem foi a convite do governo polonês. Roberto Requião (PMDB-PR) o acompanhou e passou 12 dias, com diárias de R$ 10.083. No ano passado, antes de o Brasil se definir pela compra dos caças suecos, uma delegação brasileira viajou à Suécia, a convite do governo local, para conhecer os novos aviões que a Saab pretendia (e conseguiu) vender para a Força Aérea Brasileira (FAB). O líder do DEM, José Agripino (RN), foi um dos integrantes da comitiva e recebeu diárias de R$ 7.047. Na volta, fez um discurso altamente elogioso à empresa.

segunda-feira, 17 de março de 2014

AGRADO AO CONGRESSO


ZERO HORA 17 de março de 2014 | N° 17735


EDITORIAIS



Mais de 40 dias depois de dar início à reforma ministerial, com a troca de quatro ministros, a presidente Dilma Rousseff praticamente concluiu as mudanças no primeiro escalão, no qual seis novos integrantes tomarão posse nesta segunda-feira. A demora na conclusão das trocas e a definição sobre os futuros ministros se devem a uma rebelião na Câmara que, liderada pelo PMDB, deu margem à criação de uma espécie de blocão de insatisfeitos, composto por deputados de diferentes siglas. Em consequência, a nova composição ministerial preocupa-se mais em conter insatisfações políticas do que em contemplar a execução de um programa coerente na reta final de uma administração entrecortada por Copa do Mundo e eleições, o que é lamentável.

O primeiro teste prático para averiguar se as concessões feitas na tentativa de contentar aliados surtiram efeito deverá ocorrer na votação do Marco Civil da Internet, prevista para os próximos dias. Mas é lamentável que, mais uma vez, a tentativa de pacificação política tenha envolvido alterações na política de liberação de emendas parlamentares. Por mais que esse instrumento seja legítimo, particularmente em ano de campanha eleitoral, é inadmissível que acabe se transformando em moeda de troca em momentos de maior tensão.

O que os brasileiros têm a esperar de integrantes do Executivo e do Legislativo é que exerçam seus papéis com o máximo de eficiência possível, evitando que esse acabe sendo um ano perdido sob o ponto de vista de questões que dependem de aval político. Por isso, é importante que se mantenham atentos e possam avaliar se esse remendo ministerial vai propiciar resultados favoráveis apenas para os parlamentares ou também para o conjunto da população.

O PERFIL DO EMPREGUISMO



ZERO HORA 17 de março de 2014 | N° 17735


EDITORIAIS


Pesquisa divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidencia o inchaço das administrações estaduais por conta do aumento constante de cargos de confiança. Enquanto o número de servidores concursados sofreu uma redução de 0,3% nos 26 Estados brasileiros e no Distrito Federal, entre 2012 e 2013, o contingente de comissionados aumentou 13,6% nos cargos sem vínculo permanente e 10,7% no quadro de estagiários. Traduzindo em números efetivos: as administrações direta e indireta perderam 8.324 servidores concursados, mas tiveram acréscimo de 10.386 pessoas em cargos de confiança. O número de servidores estaduais em cargos comissionados no país aumentou de 105,2 mil em 2012 para 115,6 mil no ano seguinte.

Esses dados da Pesquisa de Informações Básicas Estaduais (Estadic) 2013 expressam a persistência do empreguismo nas administrações estaduais, pois os cargos comissionados dispensam concurso público e servem de moeda de troca na composição de alianças partidárias. O principal pretexto dos governantes para recorrer ao expediente da contratação temporária é ainda mais constrangedor: apenas com os servidores de carreira, que desfrutam de inúmeras prerrogativas e têm estabilidade, é quase impossível fazer a administração funcionar. Já os comissionados, que podem ser demitidos a qualquer momento, demonstram muito mais efetividade e eficiência do que os estáveis.

A verdade, porém, é que o funcionamento da máquina administrativa depende muito mais do gerenciamento eficaz do que propriamente do inchaço de CCs. A própria pesquisa do IBGE demonstra que 11 Estados reduziram o número de cargos comissionados em um ano, sem prejuízos significativos para a produção de obras e serviços. E o Estado onde ocorreu a maior redução tem um dos governos melhor avaliados pela população: Pernambuco, com 42,5% de servidores empregados sem concurso a menos. Havia 3.390 cargos comissionados em 2012 e no ano seguinte o número caiu para 1.948.

Como Pernambuco, outras oito unidades da federação reduziram os postos preenchidos por nomeações: Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e Santa Catarina. Nos demais, houve aumento nos cargos comissionados. As maiores elevações foram registradas no Amapá (199,9% vagas a mais para cargos de confiança), Ceará (115,7%), São Paulo (90,2%) e Tocantins (85,5%).

Esses números são referências importantes no momento em que os eleitores preparam-se para referendar a continuidade dos atuais administradores ou para escolher novos representantes para o comando dos seus Estados.

sábado, 15 de março de 2014

AS ALEGRIAS DE UM BLOCÃO


REVISTA ISTO É N° Edição: 2312
| 14.Mar.14 - 20:50
| Atualizado em 15.Mar.14 - 18:04




Carlos José Marques, diretor editorial



As fragorosas derrotas impostas pelo PMDB ao governo na Câmara dos Deputados na semana passada e o ato de traição contido nesse movimento demonstram, de forma cristalina, quão frágeis e corrompidas são essas alianças. A chantagem correu solta para a perplexidade do Executivo e o espanto geral da Nação, deixando mais uma vez exposto o grau de putrefação das negociatas políticas. A base de sustentação oficial, que incluía nada menos que sete partidos e cerca de 400 parlamentares, ruiu como um castelo de cartas. E ruiu apesar de todas as declarações de líderes de lado a lado, do PT e do PMDB, de que as coisas seguiam às mil maravilhas. “O PMDB só me dá alegrias”, decantou Dilma horas antes de conseguir meros 28 votos de gatos pingados na discussão de projetos de seu interesse. No que foi, ato contínuo, endossada pelo peemedebista, seu vice, Michel Temer. Estavam os dois redondamente enganados. E foram humilhados no Congresso. 

O blocão de rebelados, hegemônico e coeso na quase totalidade, deu sim várias “alegrias” ao Executivo, mas de outra natureza. Os comandados pelo líder do partido, Eduardo Cunha, articularam convocações de ministros para que depusessem e montaram uma comissão de investigação sobre a joia da coroa estatal, a Petrobras. Com que intuito? 

Apenas e tão somente demonstrar força de resistência contra o que consideraram soberba da presidenta na decisão de lhes negar mais alguns postos-chaves na administração pública. Fisiologismo é o nome do jogo! Indigesto, sem dúvida, mas historicamente conhecido nos corredores do Planalto desde tempos imemoriáveis – que ganhou, sabe-se, escala no período da ascensão de Lula e de sua trupe ao poder, aparelhando o Estado em um esquema que se mantém até hoje. 

Ninguém se engane: o governo deverá ceder, mais uma vez, aos apelos e recompor, como vem fazendo do início do mandato para cá, a despeito de qualquer interesse maior do País. Enquanto isso não acontece, sangra em praça pública a candidata à reeleição, com a imagem sistematicamente arranhada pela conhecida falta de traquejo nos meandros da política. 

Foram decerto a habitual aversão a conchavos e a inabilidade nas conversas com parlamentares que levaram o clima a azedar entre Dilma e o blocão de “aliados”. A postura, invariavelmente arrogante e distante da presidenta, com qualquer que seja o interlocutor, tem gerado dissabores frequentes. Nem mesmo o uso e o abuso das práticas de clientelismo e apadrinhamento, com a distribuição de cargos e verbas para aliciar simpatizantes, têm segurado o avanço da ala dos descontentes. Mas Dilma continua a enxergar só alegrias. Até quando?

O POPULISMO E A LEI DA ACUMULAÇÃO DAS BURRADAS


O ESTADO DE S.PAULO 15 de março de 2014 | 2h 58


ROLF KUNTZ*




Burrada gera burrada e tende a crescer em espiral, como os preços inflados, quando a besteira é realimentada pela mentira. No Brasil, essa combinação de erros levou à superinflação, nome inventado para marcar a tênue diferença entre a hiperinflação e o desastre brasileiro dos anos 80 e começo dos 90. Proscrito por algum tempo, o jogo está consagrado, novamente, na rotina brasiliense. O socorro de R$ 12 bilhões às elétricas, para atenuar os efeitos de uma política populista de tarifas, é o mais novo lance desse jogo. O Tesouro gastará R$ 4 bilhões além dos R$ 9 bilhões previstos no Orçamento e a Câmara de Comercialização de Energia, um ente privado, tentará obter no mercado um financiamento de R$ 8 bilhões, pagando juros, naturalmente. Os consumidores serão mais uma vez poupados, neste ano, e só depois de votar receberão a conta aumentada.

Mentira é uma boa palavra para designar a maquiagem das contas fiscais e a tentativa de reprimir - e falsificar, portanto - os índices de preços. No caso das contas públicas, também tem sido usada, com sucesso internacional, uma expressão mais suave: contabilidade criativa. A nomenclatura faz pouca diferença. O importante é reconhecer a realimentação e a multiplicação dos erros quando se tenta disfarçar os problemas, em vez de resolvê-los. O efeito circular é claríssimo na crise argentina. Também é indisfarçável na baderna econômica da Venezuela, marcada nas páginas da História, de forma indelével, pela escassez de papel higiênico. Haja páginas.

O exemplo argentino é um modelo para os governantes populistas, em geral muito interessados nos benefícios políticos e pouco preocupados com os custos efetivos para a economia. Para disfarçar a inflação o governo da Argentina tem falsificado os indicadores e tentado tabelar ou congelar os preços. Como o fracasso é inevitável, amplia a vigilância e tenta levar o controle até a origem dos produtos. Com isso, impõe perdas a agricultores e pecuaristas e cria um conflito entre a administração central e o setor mais eficiente da economia. De passagem, cria algum obstáculo à exportação de alimentos, para derrubar os preços internos, e compromete a receita cambial. Como o Executivo também usa os dólares da reserva para liquidar contas fiscais, a combinação das trapalhadas produz ao mesmo tempo inflação crescente, insegurança na produção e escassez de moeda para os pagamentos internacionais.

Para poupar reservas o governo impõe controles severos às compras de moeda estrangeira e aumenta o protecionismo. Também esse esquema tende ao fracasso, mas produz algum efeito quando um governo amigo se dispõe a aceitar o desaforo comercial. Neste caso, esse governo amigo tem como endereço principal o Palácio do Planalto, em Brasília. A tolerância é praticada em nome de uma solidariedade nunca retribuída e, de forma implícita, de uma liderança regional imaginária e sempre desmentida na prática.

A solidariedade tem um claro componente ideológico. O estilo dos Kirchners tem sido uma evidente inspiração para o governo brasileiro. Mas as condições no Brasil são um tanto diferentes e têm sido menos propícias, pelo menos até agora, a algumas iniciativas mais audaciosas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda funciona sem interferência do Executivo. O PT conseguiu, pelo menos durante algum tempo, impor sua marca ao velho e respeitável Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mas a ação foi desastrada e desmoralizante. Não se conhece, até hoje, nenhuma tentativa semelhante em relação ao IBGE.

Sem manipulação direta dos índices, a maquiagem da inflação ocorre diretamente nos preços, por meio, por exemplo, da redução das contas de eletricidade, da imposição de perdas à Petrobrás e do congelamento das tarifas de transporte urbano. Seria politicamente muito mais complicado tentar mexer nos indicadores produzidos pelo IBGE. Mas a interferência direta na fixação de preços dispensa o governo desse risco. Impõe, em contrapartida, uma porção de outros problemas.

O congelamento de tarifas de transporte público resultou em perdas para governos municipais e estaduais, incluídos os do PT. Recursos para investimentos e até para ações rotineiras tornaram-se mais escassos, mas o reajuste de tarifas é hoje politicamente mais difícil do que no ano passado.

O esperado socorro do governo federal - uma das apostas do prefeito Fernando Haddad - também está atrasado e é pouco provável, porque as contas do Tesouro Nacional estão em más condições. Se algum socorro aparecer, será uma surpresa, porque a meta fiscal anunciada no mês passado pelo ministro da Fazenda parece cada dia mais inacessível. O aumento das despesas para socorrer o setor elétrico é uma sangria a mais para o Orçamento federal.

Se a presidente insistir em poupar os consumidores, será preciso compensar os gastos adicionais do subsídio às contas de eletricidade. O ministro da Fazenda mencionou o possível aumento de impostos e a reabertura do Refis, o refinanciamento de dívidas tributárias. Mais uma vez o balanço fiscal dependerá de receitas especiais, como os pagamentos iniciais do Refis, os dividendos do BNDES e o pedágio pago pelas concessões de infraestrutura. Se as agências classificadoras aceitarem a jogada, talvez se possa evitar a redução da nota de crédito soberano.

Um pouco mais de seriedade na gestão das contas públicas e no combate à inflação pouparia ao governo muitas complicações e livraria o País de perdas injustificáveis. Combate sério à inflação inclui o uso mais eficiente do dinheiro público e a ação realmente autônoma do Banco Central. O Brasil nada ganhou com a redução voluntarista dos juros. A inflação subiu e foi preciso apertar de novo a política monetária. Também nada ganhou com a manipulação de preços e tarifas. Burradas só geram problemas e o esforço para disfarçá-los envolve novas burradas, como a solução improvisada para o problema das elétricas.

*ROLF KUNTZ É JORNALISTA

O ÔNUS ENERGÉTICO



ZERO HORA 15 de março de 2014 | N° 17733


EDITORIAIS



Como era previsível, caberá também ao consumidor arcar com o ônus da má gestão no setor elétrico e de dificuldades que, aos poucos, o governo federal vai sendo forçado a reconhecer. Diante da necessidade de acionar as usinas térmicas, de custo até seis vezes superior ao das hidrelétricas, cujos reservatórios foram prejudicados pela estiagem, o governo federal decidiu compartilhar a conta, assumindo uma parte dela, transferindo outra para o sistema elétrico e o restante, para os usuários. Ainda que, até certo ponto, o problema se deva à falta de chuvas, é evidente que o impacto poderia ser menor se, nos últimos anos, o poder público tivesse investido mais nessa área, ampliando a capacidade de geração, com programas de médio e longo prazos, e diversificando mais a matriz energética.

A decisão tomada agora, de transferir para os brasileiros uma parcela da conta sob a forma de aumento de impostos, ainda não detalhado, e reajuste na tarifa no próximo ano, depois das eleições, tem consequências preocupantes. Uma delas é a de demonstrar que a inédita redução na tarifa, anunciada há pouco mais de um ano, não assegurou os resultados esperados, como o de estimular a produção. Além disso, acabou favorecendo um aumento no consumo de energia, quando o que deveria estar ocorrendo é o inverso, se não fosse ano eleitoral. Em consequência do aporte financeiro ao setor elétrico, o governo deve enfrentar ainda mais dificuldades para cumprir a meta de superávit primário – os recursos destinados ao pagamento de juros da dívida pública –, o que acaba gerando mais instabilidade na economia. E os consumidores, além de terem que arcar com mais impostos, ainda enfrentarão um reajuste considerável na tarifa mais à frente.

O retrospecto demonstra que, quando os repasses são represados, como está ocorrendo agora, o impacto sobre o consumidor acaba muitas vezes se revelando superior ao previsto. Por isso, o que o governo federal precisa fazer é reafirmar os compromissos de acelerar os projetos na área energética, evitando que o país volte a ser atropelado por instabilidades desse tipo, que geram prejuízos aos usuários e insegurança entre investidores.

Os equívocos do governo deixam evidente que o setor elétrico não pode ser usado para ações demagógicas, como redução de tarifas, nem para o adiamento de reajustes por razões eleitorais, como foi decidido agora. Sempre que o país passou por políticas irrealistas de preços, o consumidor acabou arcando com um reajuste ainda mais expressivo no final.

sexta-feira, 14 de março de 2014

PARA ONDE VÃO OS BONS


ZERO HORA 14 de março de 2014 | N° 17732


DAVID COIMBRA




Estava lendo sobre os tais gastos do senador Pedro Simon com o plano de saúde dos congressistas e fiquei triste. A esta altura da vida e da carreira, um homem como Pedro Simon ter de se explicar sobre gastos com saúde, como se ele estivesse arrombando as burras públicas. Quanta miséria.

Preciso deixar algo bem claro: não estou sendo irônico. Os congressistas têm de ter um ótimo plano de saúde, têm de ter ótimos salários, os ex-governadores e ex-presidentes têm, sim, de receber pensão vitalícia, e uma gorda pensão. Faz parte do custo da democracia, e é um custo barato.

Imagine um senador da República chegar aos 80 anos de idade, como Pedro Simon, e descobrir que não tem dinheiro para financiar um caríssimo tratamento de saúde. O que ele fará? Morrerá impoluto ou se deixará financiar por interesses escusos? Ou então imagine um ex-presidente da República ter de se empregar em uma grande multinacional para não passar necessidade no fim da vida. Por favor!

É por distorções como essas que os bons estão cada vez mais distantes da política. Resta o resto. O rebotalho. A escumalha. Por que um profissional que pode ser bem acolhido pela iniciativa privada, e nela receber um vultoso salário e nela ser tratado como estrela, irá arriscar sua reputação numa atividade em que ele estará sempre sob suspeita e que, a priori, condena-o à censura pública? Quem encara um político já o faz de nariz torcido.

Assim, o que existe à disposição do povo brasileiro na política? Os poderosos, hoje, estão no PT, embora os petistas, ladinamente, digam que os poderosos estão em outro lugar. Muito sagaz. Lula é autor dessa obra. Lula é um gênio político. Aprendeu como chegar ao poder com destreza única na História do Brasil. Nem Getúlio foi tão perspicaz. Mas, chegando ao poder, o que Lula e o PT fazem com ele? Trabalham para se manter no poder. É assim que funciona o governo brasileiro. Ele está no poder para se manter no poder. É um motocontínuo.

Quais são as ações práticas e administrativas do governo petista nesses 12 anos? As mesmas do governo militar. O PT é desenvolvimentista. Empenhou-se em pavimentar estradas, construir hidrelétricas e fomentar alguns empresários amigos, como Eikes e Fribois. Exatamente como o governo militar. Na parte social, o PT valeu-se de programas, jamais fez mudanças estruturais. Qual é a diferença ente o Minha Casa, Minha Vida e o BNH e entre o Prouni e o velho Crédito Educativo? Nenhuma, salvo que o BNH e o velho Crédito Educativo talvez fossem melhores. Onde estão as reformas? O que é feito da Saúde, da Educação e da Segurança Pública, que só pioram? Foram 12 anos perdidos, como foram perdidos os 20 do regime militar.

Mas Dilma será reeleita e, depois dela, graças à ação paternalista e ideológica que se desenvolve todos os dias no Brasil profundo, graças também ao gênio de Lula, depois dela o PT seguirá por mais uma geração no poder. Até porque as alternativas são de dar medo: o PSDB dos vorazes tubarões da indústria paulista, os moluscos do PMDB, os conservadores retrógrados dos partidos sucedâneos da Arena, como aquele partido de nome contraditório, o Democratas, e os aprendizes de talibãs da ultraesquerda. Cruzcredo, valha-me, Nossa Senhora mãe de Deus de Nazaré!

Para onde foram os bons do Brasil? Para a iniciativa privada, longe da vigilância dos falsos moralistas, longe dos escândalos de fachada, longe da denúncia dos hipócritas, longe da cobrança mesquinha como a que desabou sobre o senador Pedro Simon. Pobre do senador Pedro Simon. Pobres dos (cada vez mais raros) dignos homens públicos do Brasil. Pobre do povo brasileiro.