VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

sábado, 17 de maio de 2014

TERRORISMO ELEITORAL NO AR

REVISTA ISTO É 17.Mai.14 - 16:10




Carlos José Marques, diretor editorial



O medo como arma de campanha sempre foi tido e havido como o último dos recursos a que se apela quando todos os demais não surtiram efeito, no objetivo de aliciar a preferência dos eleitores a favor de um candidato contra o seu adversário. 

Na semana passada, o Partido dos Trabalhadores decidiu reverter essa lógica e colocou no ar, de saída, um “teaser” onde a mensagem do medo é abertamente lançada para angariar votos de indecisos e incautos. 

“Não podemos deixar que os fantasmas do passado voltem”, brada o locutor, enquanto imagens de brasileiros empregados e desempregados, pedintes e estudantes são sobrepostas, com a ameaça subliminar de um retrocesso caso a presidenta Dilma não vença as próximas eleições. A oposição naturalmente reagiu taxando de tática do desespero. A presidenta, que segue em queda nas pesquisas de popularidade, parece acreditar no vale-tudo. 

E, nesse ambiente, o debate que deveria caminhar, a bem do País, para o campo das mudanças estruturais almejadas pela sociedade desce ao nível da baixaria pura e simples. O recurso, mais que deplorável, é de eficácia duvidosa. Já foi tentado inúmeras vezes. E, ironia das ironias, contra o próprio PT. Em 2002, na campanha do candidato tucano José Serra, uma peça de sua propaganda eleitoral trazia o depoimento da atriz Regina Duarte dizendo ter medo de Lula e do risco que o Brasil corria de perder a estabilidade conquistada. O opositor Lula respondeu com o mantra “a esperança vai vencer o medo” e levou a vitória. 

Desta vez, na filosofia distorcida de seu partido, intensifica-se a guerra do “nós contra eles”, como se o Brasil pudesse ser dividido em duas facções, a do “bem” e a do “mal”, a de “ricos contra pobres”. 

Certamente um equívoco. Com essa visão distorcida do maquiavélico conceito de dividir para governar, o PT incita sem necessidade o apartheid de classes. E peca ao não perceber que a insatisfação do eleitorado aumenta independentemente da camada social. Os que hoje desaprovam o governo, como mostrou a pesquisa Istoé/Sensus, já estão percentualmente em maior número do que aqueles que aprovam (49% a 40% dos entrevistados). 

Nas ruas, na semana passada, novos protestos e greves deram mais uma demonstração nesse sentido. Seria, portanto, prudente e aconselhável nesse cenário que partidos e candidatos deixassem de lado seus meros projetos de poder em prol das propostas que constituam um projeto de gestão mais eficiente – em sintonia com o que a Nação realmente necessita.

PODER POLÍTICO FAZ SUMIR PROFESSORES

REVISTA ISTO É Edição: 2321 | 16.Mai.14 - 20:50 | Atualizado em 17.Mai.14 - 15:51


Professor fora da sala de aula. Levantamento mostra que é comum ceder docentes para gabinetes de políticos e órgãos públicos. Se estivessem lecionando, supririam 20% da carência do magistério nacional, segundo o TCU

Wilson Aquino


Quando um professor é contratado para trabalhar na rede estadual de educação, o mínimo que se pode esperar é que ele frequente a escola. Entretanto, levantamento de ISTOÉ em 19 Estados e no Distrito Federal constatou que 6.538 professores concursados estão alocados em gabinetes de políticos, de membros do Judiciário e em órgãos públicos – outros milhares ocupam funções burocráticas na própria escola. O número corresponde a 20% da carência do magistério nacional, que é de 32 mil docentes, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). A cessão de professores é rotina em todos os Estados, sendo que Pernambuco é o recordista: 1.236 cessões, ou 5% do total da rede, que é de 25.874 docentes.


PREJUÍZO
O Brasil tem uma carência de 32 mil professores

São os próprios governos que não impõem limites à realocação de professores. Para contratar um docente, basta o órgão solicitante repassar às secretarias de educação o salário do profissional. A exceção poderia ser o Rio de Janeiro, onde a Constituição do Estado proíbe os membros do magistério público de se afastar da regência de turmas. Mas somente para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) o número de professores cedidos é de 115, contingente capaz de suprir duas escolas com 1.500 alunos cada. O total de docentes fluminenses cedidos é exatamente igual ao do déficit da rede, 800.



Para Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos Pela Educação, os dados mostram a desvalorização da categoria. “O professor é a principal garantia da qualidade do ensino”, afirma. O deputado fluminense Comte Bittencourt (PPS), “que tem sete ou oito professores” no gabinete, admite que, em tese, todos os cedidos estão em situação irregular. “Mas é o governo quem cede. E para os professores é uma forma de aumentar a remuneração”, justifica o deputado, que preside a Comissão de Educação da Alerj há 12 anos. A secretária de Educação da Paraíba, Márcia Lucena, que tem 249 professores cedidos para outros órgãos, explica que muitos estão há tanto tempo sem lecionar que nem vale a pena trazê-los de volta. “Quem está há 20 anos fora da sala de aula não consegue se relacionar com a juventude de hoje”, justifica.

Foto: Mermet/Photo Nonstop/Glowimages

ITAMARATY EM GUERRA, OPORTUNISMO NA VÉSPERA DE EVENTO MUNDIAL

REVISTA ISTO É N° Edição: 2321 | 16.Mai.14 - 20:50

Itamaraty em guerra. Às vésperas da Copa do Mundo, enquanto embaixadas são alvo de vandalismo, funcionários de consulados do Brasil no Exterior, numa ação oportunista, paralisam atividades e expõem inabilidade do Itamaraty para resolver suas questões administrativas

Izabelle Torres


Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, o Itamaraty, que deveria zelar pela imagem e diplomacia do País que está sob os holofotes do mundo, entrou em pé de guerra. De um lado, as embaixadas vivem dias tensos, sob ameaças de ataques de vandalismo e depredações. Em Berlim, vândalos jogaram pedras na representação brasileira em sinal de protesto contra o evento mundial. Outras embaixadas pelo mundo, especialmente na Europa, reforçaram a segurança. De outro lado, o desentendimento do Itamaraty com seus próprios funcionários expôs problemas internos do órgão e uma total inabilidade diplomática para negociar. Quem precisou de passaportes ou vistos em 13 representações diplomáticas, incluindo Nova York e Paris, se deparou com uma paralisação de 48 horas dos funcionários que possuem contratos terceirizados. Ao chegar a esses consulados, turistas que pretendem assistir à Copa no Brasil foram informados sobre a greve em sinal de protesto contra a precariedade dos direitos trabalhistas de brasileiros que atuam nesses postos sem vínculos efetivos.


ATAQUES
A embaixada brasileira em Berlim foi apedrejada por um grupo de vândalos
na madrugada da segunda-feira 12. Vidraças foram quebradas



A greve, ocorrida justamente quando a demanda por documentos para a entrada no Brasil triplicou por conta da Copa, ao mesmo tempo que se revelou oportunista, lançou luz sobre as dificuldades administrativas do Itamaraty e sua inépcia para tratar com os próprios funcionários. Não há uma norma internacional que regule os contratos entre servidores terceirizados e as embaixadas. O Itamaraty afirma que esses contratos são regidos pela lei do país onde estão instalados, como determinam a Lei 11.440/06 e o Decreto 1.570/95, e que é impossível fazer uma negociação global, visto a diferença de mercado e legislação de cada local. Apesar disso, os funcionários terceirizados reivindicam direitos previstos na lei brasileira, como, por exemplo, 13º salário, férias acrescidas de um terço e licença-maternidade. O movimento é organizado pela Associação dos Funcionários Locais do Ministério das Relações Exteriores no Mundo (Aflex), organização que não inclui servidores de carreira que também atuam nas missões brasileiras no Exterior, como diplomatas e oficiais de chancelaria. O Ministério de Relações Exteriores diz que os auxiliares locais “têm todo direito de levar à Justiça local eventuais reclamações trabalhistas ou de cerceamento de direitos”, mas que até o momento não há registro de que qualquer contratado local tenha impetrado ação trabalhista no Exterior.

As reclamações remontam ao ano de 2010, mas, como esses servidores são demissíveis, os protestos vinham sendo feitos de forma acanhada. O Itamaraty, em vez de encontrar uma solução para o problema e debelar a crise lá atrás, deixou para negociar na última hora. Por isso, teve de enfrentar a situação em momento complicado. De maneira oportunista, esses funcionários aproveitaram a proximidade com a Copa para intensificar as reivindicações. O resultado foi a paralisação de serviços essenciais, prejudicando quem recorresse às embaixadas e consulados no Exterior. “Não queríamos promover paralisações. Só que chegamos ao nosso limite”, diz Claudia Rajecki, presidente da Aflex. “Estamos sós e fomos abandonados pelo nosso governo.” No Congresso, o grupo é ajudado pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que tenta aprovar um projeto de lei no Senado para tornar obrigatório que representações diplomáticas do Brasil no exterior contratem funcionários terceirizados com base na CLT.

Durante os protestos registrados na última semana, foram afetados os consulados de Nova York, Atlanta, Los Angeles, Hartford, São Francisco e Houston, nos Estados Unidos; de Londres, Montreal, Frankfurt e Bruxelas, além do consulado e da embaixada em Paris e em Berna. Houve também manifestações nas embaixadas de Roma e Milão (Itália), Boston e Miami (EUA), Genebra (Suíça) e Roterdã (Holanda). As representações diplomáticas brasileiras nos Estados Unidos, país estrangeiro com mais compradores de ingressos para a Copa, têm aproximadamente 340 funcionários locais, responsáveis por atividades como emissão de vistos e passaportes. Só em Nova York, o consulado brasileiro dispõe de 55 servidores terceirizados. Desses, 28 trabalham no setor consular e atendem uma média de 350 a 400 pessoas por dia. No ano passado, segundo informações oficiais, o consulado em Nova York emitiu 81.767 vistos brasileiros para estrangeiros e 14.013 passaportes brasileiros.



Ao mesmo tempo que tenta reduzir os prejuízos gerados pelas paralisações, o Itamaraty trabalha para que suas representações que foram alvo de vandalismo nos últimos dias voltem à normalidade. Assustados, funcionários da embaixada em Berlim, na Alemanha, fecharam as portas. Alguns servidores se recusaram a trabalhar nos dias posteriores aos ataques. As depredações em Berlim foram organizadas por um grupo de dez pessoas vestidas de preto. Elas lançaram cerca de 80 pedras e destruíram grande parte dos vidros do primeiro andar do prédio. No período noturno, a embaixada conta somente com um segurança da empresa Securitas na portaria. Em nota divulgada em seu portal, a polícia disse que, além do porteiro, um policial estaria de plantão em frente ao edifício durante os ataques. O site Indymedia publicou a carta de um grupo anônimo que avoca para si a autoria do ataque. “Para chamar a atenção para o que a Copa do Mundo significa e derrubar a Fifa, fizemos uma ação com as armas mais simples do povo, as pedras. Com as mesmas pedras usadas para sua defesa contra o batalhão de choque, nós demolimos a fachada da embaixada brasileira.” O manifesto encerra com a expressão “Nao (sem o til) vai ter Copa”. A embaixada brasileira em Berlim fica situada na rua Wall, no centro da capital alemã, numa área nobre, com hotéis, museus e representações diplomáticas de outros países.

Foto: Divulgação Aflex; REYNALDO PAGANELLI/FUTURA PRESS

O MEDO QUE O PT TEM

REVISTA ISTO É  Edição: 2321 | 16.Mai.14 - 20:50


Deterioração das relações entre o PT e movimentos sociais leva o governo a enfrentar uma onda de protestos e greves pelo País. Dilma teme que mobilizações, engrossadas por oportunistas, se intensifiquem durante a Copa e prejudiquem a reeleição




O governo respirou aliviado na quinta-feira 15 quando fez um balanço das greves e manifestações do dia. Ao contrário da ameaça de centrais sindicais e movimentos populares de colocarem milhões de manifestantes nas ruas e paralisarem centenas de categorias pelo País, os protestos ficaram aquém da expectativa. A barganha às vésperas da Copa do Mundo, que misturou de velhas demandas a mobilizações oportunistas, parece não ter conquistado ainda o apoio necessário para inundar as ruas, como seus líderes desejavam. Apesar do respiro momentâneo, o governo atravessou a última semana com uma certeza e um caminho a seguir na tentativa de debelar futuras ameaças de paralisações e protestos. A certeza é de que a gestão de Dilma perdeu o controle e a influência exercida desde o governo Lula sobre os movimentos sociais, como os por moradia e de trabalhadores, historicamente ligados ao PT. Não à toa, em Belo Horizonte, servidores públicos municipais cruzaram os braços e, em Pernambuco, instalou-se um clima de pânico com a greve de integrantes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Em meio à atmosfera beligerante, tanques do Exército ocuparam as ruas no Recife. Em São Paulo, movimentos por moradia e grevistas pararam avenidas importantes da capital.


O CLIMA ESQUENTOU
Em São Paulo, integrantes do movimento dos sem-teto
protestaram em frente ao Itaquerão, ateando fogo em pneus

Diferentemente das manifestações de junho, porém, quando as depredações e os protestos foram encabeçados por movimentos anarquistas, os chamados Black Blocs, com os quais o Planalto não conseguia estabelecer um diálogo, o governo desta vez terá caminhos e maneiras de retomar o canal de comunicação com os manifestantes. Para a sorte da presidenta, ao contrário do ano passado, os atuais manifestantes possuem líderes dispostos a sentar à mesa de negociações.

O que eles esperam é uma mudança de postura do governo. Ao contrário de Lula, que mantinha um canal direto com as lideranças sociais, Dilma relegou os movimentos a segundo plano. Nos bastidores, dirigentes de centrais sindicais reclamam que a presidenta mostra-se pouco disposta ao diálogo e age de maneira intransigente diante de pautas de reivindicações. Esse alegado descaso fez com que até a Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, chegasse a reclamar do governo durante a greve de servidores federais em 2012. Já a Força Sindical, segunda maior central do País, passou de aliada de primeira hora a ferrenha opositora de Dilma, sendo uma das articuladoras da onda de greves, em que propaga críticas também à área econômica da gestão federal. “Este governo não atende os trabalhadores”, reclama o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, cotado para vice na chapa de Aécio Neves (PSDB) ao Planalto. “Por isso, continuaremos nas ruas dispostos a influenciar, mais uma vez, os destinos do País”, diz ele.

Dirigentes petistas reclamam que Dilma, logo após assumir, desmontou um poderoso aparato que servia como espécie de termômetro dos movimentos sociais no governo Lula. Com larga experiência nas organizações de trabalhadores, o ex-presidente havia nomeado para cargos na máquina federal ex-dirigentes da CUT. Eles tinham, na prática, a função de atuar junto a movimentos estratégicos contornando crises ou alertando o Palácio do Planalto sobre eventuais focos de insatisfação. Sem esse mecanismo, a presidenta acabou sendo pega de surpresa em greves de servidores e nas manifestações de junho.



Para sindicalistas e até integrantes do governo, as paralisações poderão se intensificar dias antes do início da Copa do Mundo. De acordo com uma estimativa da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), cerca de um milhão de trabalhadores irão às ruas, nos próximos dois meses, em todos os Estados. Já a Força Sindical calcula que quatro milhões de trabalhadores se mobilizarão por melhorias salariais e condições de trabalho. A coincidência entre o período da Copa do Mundo e a data-base (negociações salariais) de importantes categorias, além do momento eleitoral, deu um forte poder de barganha aos trabalhadores. “É uma janela de oportunidade”, diz Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), referindo-se às vantagens de se negociar quando do outro lado há o temor de que ocorram greves que prejudiquem o evento ou mobilizações que atraiam a atenção da imprensa internacional. Outras nações que sediaram os grandes eventos esportivos também registraram ameaças de greve. Às vésperas da Copa do Mundo de 2010, por exemplo, o governo sul-africano enfrentou paralisações até de centrais sindicais historicamente aliadas. No Reino Unido, os trabalhadores da área de serviços públicos também ensaiaram uma greve antes dos jogos olímpicos de 2012.

Pressionados pelos sindicalistas e pelos movimentos sociais, a presidenta Dilma e seus auxiliares tentam sufocar essas ações de todas as formas. Nas últimas semanas, o governo acionou a Justiça para isolar uma possível paralisação na Polícia Federal durante a Copa do Mundo, num movimento estranho à história do PT. Obteve uma liminar, que multa a representação da categoria em R$ 200 mil por dia de greve e proíbe os policiais de adotarem a chamada operação-padrão ou qualquer “outra ação organizada que, direta ou indiretamente, venha a interferir nas rotinas, condutas e nos protocolos estabelecidos e normalmente adotados, no âmbito interno e no tratamento ao público”. Só que, em vez de intimidar a categoria, a medida piorou a relação entre os policiais e o governo. “Se não tivermos nenhuma resposta positiva do governo, paramos na Copa. Isso vai afetar principalmente os aeroportos, por onde poderão conseguir passar procurados pela Interpol, terroristas e outro tipo de gente que não queremos aqui”, declarou André Mello, presidente do sindicado dos servidores da Polícia Federal no Rio de Janeiro.



Em entrevista às páginas vermelhas de ISTOÉ nesta edição, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, diz acreditar que, a despeito do clima adverso, haverá “tranquilidade” para a realização dos Jogos. “Se houver problemas, a Polícia Federal estará preparada”, afirmou. O principal objetivo do governo, no curto prazo, é evitar a todo custo possíveis protestos no dia 12 de junho, data do jogo de abertura da Copa, quando movimentos sociais articulam uma série de manifestações simultâneas no Brasil e no Exterior. A conferir se até lá os canais de comunicação com setores historicamente ligados ao PT serão desobstruídos.

Fotos: Eduardo Knapp/Folhapress, Miguel Schincariol/ AFP PHOTO; Domingoa Peixoto/ Ag. o Globo; Allan torres/ D.A. Press

O PT QUE METE MEDO

REVISTA ISTO É N° Edição: 2321 | 16.Mai.14


Contrariando a estratégia eleitoral que levou o PT ao poder com Lula em 2002, campanha de Dilma tenta disseminar o pânico para estancar a queda de popularidade

Sérgio Pardellas




A estratégia de difundir o medo e criar fantasmas na cabeça do eleitor para tentar demonizar adversários políticos costuma ser de altíssimo risco. Quando utilizada em campanhas eleitorais, equilibra-se num fio de navalha. Qualquer erro no tom pode ser fatal para a candidatura empenhada em recorrer a esse expediente. O retrospecto histórico, no Brasil e no Exterior, elenca casos bem e malsucedidos da tática eleitoral de desqualificar o oponente inoculando o pânico. Mas há uma situação em que adotá-la se torna quase um suicídio eleitoral: quando ela confronta o sentimento de mudança reinante no eleitorado. Praticamente todas as vezes em que isso ocorreu, a estratégia se revelou um equívoco e o candidato terminou derrotado nas urnas. Um exemplo clássico de malogro eleitoral assentado na tática de disseminar o terror em meio a um clima de mudança no País ocorreu em 2002, quando o então candidato Lula, ao encarnar a esperança, triunfou sobre o medo propagandeado por José Serra, candidato do PSDB. Na ocasião, o tucano exibiu em seu programa eleitoral a atriz Regina Duarte dizendo temer o repaginado Luiz Inácio Lula da Silva e aquele novo PT. Hoje, a situação se assemelha à de 2002 em relação ao estado de ânimo do eleitor. Segundo as últimas pesquisas, 74% do eleitorado deseja mudança. Anseia que o próximo presidente altere “muito” ou “quase tudo” na gestão do governo. Mesmo assim, o PT resolveu arriscar. Na última semana, a campanha à reeleição da presidenta Dilma Rousseff levou ao ar uma série de filmetes de um minuto de duração nos quais pessoas são exibidas enxergando a si próprias num passado recente, quando não tinham acesso a emprego, escola, saúde e lazer. Ao fundo, uma trilha sonora em tom e ritmo lúgubres. “Não podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo que conseguimos com tanto esforço”, afirma o locutor. “Nosso emprego de hoje não pode voltar a ser o desemprego de ontem. Não podemos dar ouvidos a falsas promessas. O Brasil não quer voltar atrás”.



Em suma, o programa petista tenta alardear que, caso Dilma não seja reeleita, as conquistas sociais serão perdidas. O discurso está alinhado com os últimos pronunciamentos públicos da presidenta. Dilma tem insinuado, nas últimas semanas, que os candidatos de oposição Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) podem trazer desemprego e arrocho salarial. O objetivo é claro: estancar a queda de popularidade de Dilma a partir da conquista do eleitorado que melhorou de vida, mas até agora se mostrava refratário à presidenta. O real impacto da nova estratégia só poderá ser aferido com maior precisão nas próximas pesquisas de intenções de voto. Mas a campanha da lavra do marqueteiro do PT, João Santanta, avalizada pela cúpula do partido em reunião prévia, da qual participaram o ex-presidente Lula, o presidente da sigla, Rui Falcão, e o ex-ministro Franklin Martins, já foi capaz de produzir um dado negativo. Nas redes sociais a hashtag #PTmentindoNaTV ocupou o topo dos chamados trending topics (assuntos mais comentados na internet) durante a exibição do programa. Mesmo que o feito possa ser atribuído em parte à guerrilha digital da oposição, é inegável que, para alcançar tamanha repercussão negativa, é necessário que o resultado nada alvissareiro para Dilma e o PT tenha sido impulsionado também pelo mau humor do eleitorado. Ciente disso, a oposição aproveitou para disparar uma saraivada de críticas ao radicalismo da campanha de Dilma e à sua tentativa de incutir o pânico na cabeça do eleitor. Aliado da petista até setembro do ano passado, Eduardo Campos foi o autor do discurso mais contundente. “Bolsa Família não é conquista de partido nenhum, é conquista do povo brasileiro que ninguém vai tirar. Vamos parar com esse terrorismo, com essa falta de respeito de querer discutir o Brasil agora na base da ameaça e do medo. O povo brasileiro não tem medo dessas ameaças”, afirmou o socialista. O tucano Aécio Neves, por sua vez, ironizou: “O medo do desemprego é do PT, que teme perder os empregos que tem no governo”, disparou. O cientista político Gaudêncio Torquato questiona a eficácia da estratégia de tentar disseminar o terror. “O terrorismo linguístico que começa a subir a montanha não chega perto das massas. Apenas reforça posições de camadas já sedimentadas”, diz ele. “Campanhas negativas podem até aumentar a rejeição ao candidato que as patrocina”, avalia o cientista político José Paulo Martins Jr., da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. O PT, no entanto, dá sinais de que, ao menos por ora, não pretende recuar. “O vídeo tocou muito a militância do partido. Vamos virar o jogo”, anima-se o vice-presidente do PT, o deputado cearense José Guimarães



Apostar na manutenção da tática pode ser um tiro no pé. Desde a redemocratização do País, a retórica do medo se revelou bem-sucedida apenas quando a população, em sua maioria, ansiava pela continuidade. Ou, então, em situações em que a tática fora utilizada por candidatos que personificavam a mudança, nunca pelos que se opunham a esse desejo. Em 1989, a campanha de Fernando Collor aproveitou as declarações do então presidente da Fiesp, Mário Amato, segundo as quais “800 mil empresários deixariam o Brasil” caso Lula ganhasse as eleições, para incutir o medo contra o PT. A tática deu certo e Collor venceu as eleições. Vale lembrar, porém, que, na ocasião, era o então candidato do PRN quem representava no imaginário do eleitor o “novo”, embora representasse na verdade as velhas oligarquias do Nordeste, e encarnava a mudança desejada pela população com promessas de acabar com os marajás. Lula, ao contrário, ainda remetia a João Goulart e à funesta consequência do fantasma comunista: golpe militar e duas décadas de ditadura. Em 1998, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sagrou-se vitorioso, no primeiro turno, ao disseminar o temor pela volta da inflação. Na ocasião, entretanto, o ambiente era de continuidade, como em 2010, quando Serra tentou demonizar o PT associando-o às Farcs e fracassou nas urnas. Nas eleições no Exterior também são fartos os exemplos da tática do medo, e os efeitos de sua utilização costumam ser semelhantes aos daqui. Em 2008, nos EUA, a vice do candidato Republicano John McCain, Sarah Palin, espalhou o terror difundindo que o democrata Barack Obama atentaria contra direitos individuais. O resultado eleitoral todos sabem.






RESSACA DE OTIMISMO



ZERO HORA 17 de maio de 2014 | N° 17799


CLÁUDIA LAITANO




Há cinco anos, o Brasil vivia um momento “última bolachinha do pacote”. Em novembro de 2009, a revista britânica The Economist colocou na capa a imagem-ícone do novo milagre brasileiro: um Cristo Redentor disparando triunfante rumo ao céu sob o título: “Brazil takes off” (Brasil alça voo). Para mim, a ficha caiu alguns meses depois. Zapeando na TV em um hotel em Londres, topei com uma grande reportagem sobre o Brasil. Entre outras coisas, ensinava-se como negociar com os empresários brasileiros (“não esqueça que eles gostam de conversa fiada e de contato físico!”). Era como se o futuro da realeza britânica dependesse da habilidade dos gringos de pegar carona no nosso futuro de bonança e prosperidade. A gente era o cara.

O pré-sal, a ascensão da classe C, o Eike bilionário ajudaram a reproduzir, entre nós, aquele repentino (e inédito) surto de otimismo. O Brasil era como aquela mocinha sem graça que passa o filme todo usando óculos e que um banho de loja subitamente revela a beleza escondida: PIB crescendo, distâncias sociais diminuindo, miscigenação, sincretismo, democracia. A gente estava começando a acreditar que podia ser mesmo o cara.

Foi outra capa da The Economist, em setembro de 2013, com o Cristo-foguete dando pinote, que assinalou o fim da farra do otimismo do resto do mundo com relação a nós – sem falar, obviamente, das manifestações de junho. Acabou o baile, e Cinderela voltou para o seu quartinho de serviço com a roupinha simples de sempre. Ao olhar externo crescentemente desconfiado da nossa capacidade de dar conta de eventos como a Copa e as Olimpíadas, veio se juntar um surto de pessimismo interno com o qual, mesmo nas piores situações, também não estamos tão acostumados. Nos últimos dias, declarações desesperançadas de artistas como Ney Matogrosso, que em uma entrevista em Portugal pintou um quadro tenebroso do Brasil, e Wagner Moura, que declarou que estava feliz por ir passar um tempo fora do país, deram voz a um desânimo que não é só deles e que não se explica apenas com análises políticas e econômicas: está no ar.

A boa (?) notícia é que o mal-estar contemporâneo não é só econômico ou político– e com certeza não é só brasileiro. É bem provável que o Brasil, na média, não esteja nem no fundo do poço nem flanando na estratosfera do futuro glorioso, mas a percepção cotidiana nem sempre é baseada apenas em dados concretos. O excesso de otimismo de 2009 com certeza contribuiu para o clima de ressaca moral e o baixo-astral generalizado que se instalou no país nos últimos tempos. A politização de todos os aspectos da vida cotidiana certamente acirra o clima de conspiração (se você é dos que defendem o governo) ou descalabro (se você é contra) que parece ter contaminado todas as conversas. Copa e eleições, por sua vez, fornecem a cortina de fumaça ideal para nublar ainda mais a visão sensata dos fatos.

Quem sabe, em 2015, a gente volte a morar naquele país com qualidades e defeitos, passado e futuro, em que o derrotismo abissal e o ufanismo abilolado não eram levados tão a sério assim.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A CPI DA TRAPAÇA


O Estado de S.Paulo 16 de maio de 2014 | 2h 08


OPINIÃO



Passou pelo duto que liga o Palácio do Planalto ao gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros, a viscosa manobra destinada a transformar em letra morta a decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria impedir, como solicitara a oposição, que a CPI da Petrobrás a ser instalada na Casa fosse contaminada com a inclusão de questões completamente alheias ao objeto específico da investigação. Pela enésima vez acaba de ficar demonstrado que jamais alguém perderá dinheiro apostando na criatividade dos políticos para a trapaça.

Quando ficou claro para a patota de Calheiros e a tropa de choque do PT no Senado, em linha direta com a presidente Dilma Rousseff, que não conseguiriam obstar "no tapetão" a abertura do inquérito sobre as suspeitas em relação a práticas da Petrobrás, trataram de desfigurá-lo. A iniciativa do PSDB e do DEM, como se recorda, nasceu da confissão da presidente de que, na qualidade de titular do Conselho de Administração da empresa, aprovara em 2006 a compra de metade de uma refinaria em Pasadena com base apenas em um parecer "técnica e juridicamente falho", o que só mais tarde ela viria a descobrir.

Além do escândalo de Pasadena, onde a petroleira acabaria enterrando US$ 1,246 bilhão, com um prejuízo contabilizado de US$ 530 milhões, a oposição se voltou para outro caso escabroso - a multiplicação por dez dos custos da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (dos US$ 2,3 bilhões inicialmente previstos para os mais de US$ 20 bilhões que deverá custar). Completavam o pacote a história dos US$ 139 milhões em subornos pagos a funcionários da estatal por uma fornecedora holandesa e a denúncia de operações inseguras em plataformas operando em mar aberto.

O troco dos governistas, que a ministra Weber parecia ter neutralizado, foi incluir na agenda da CPI os indícios de formação de cartel em contratos do Metrô de São Paulo, em governos tucanos, e possíveis irregularidades na construção do Porto de Suape, em Pernambuco. O intento era duplo: sufocar as apurações sobre a Petrobrás desde a ascensão do PT ao poder - alcançando, pois, a presidente Dilma - e levar ao pelourinho os seus adversários nas eleições de outubro, Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB.

Conseguiram o que queriam, trocando tortuosamente seis por meia dúzia. Em vez de tratar do Metrô paulistano, exumaram o episódio do afundamento da Plataforma P-36 em março de 2001, no governo Fernando Henrique, e confeccionaram um obscuro nexo entre obras da Petrobrás e o Porto de Suape. A CPI foi instalada na quarta-feira. Apenas 1 oposicionista, dos 3 que poderiam integrar o colegiado de 13 membros, aceitou fazê-lo. Sob a presidência do peemedebista Vital do Rego e com o petista José Pimentel no cargo de relator, é certo que o inquérito chapa branca nada fará em prejuízo dos interesses de Dilma.

Numa jogada de aceleração dialética, por assim dizer, o governo mandou apressar o início dos trabalhos no Senado para abafar a outra CPI sobre a Petrobrás que a oposição afinal conseguiu emplacar, incluindo também a Câmara. Se vingarem as tramoias dos governistas, a sua instalação corre o risco de ser adiada para o fim do mês - a duas semanas, portanto, do início da Copa. Mas, se e quando vier a funcionar efetivamente, não apenas remeterá a anterior a segundo plano, como terá tudo para tirar o sono da presidente. De um lado, por sua composição. De outro, pela fartura de material a merecer investigação.

Dos 32 membros da CPI farão parte deputados que só no papel pertencem à base majoritária, tão duras as suas críticas a Dilma. É o caso do próprio líder da bancada do PMDB e principal criador de casos com o Planalto na Câmara, Eduardo Cunha. Quanto à abundância de prováveis malfeitos, as denúncias se empilham. Ainda ontem, o jornal Valor revelou que a Petrobrás assinou contratos bilionários e pencas de aditivos para as obras da Refinaria Abreu e Lima muito antes da aprovação do estudo de sua viabilidade. O conselho de administração do empreendimento era liderado por Paulo Roberto Costa, então diretor da petroleira. Em março último, ele foi preso na Operação Lava Jato, da Polícia Federal.