VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

terça-feira, 28 de março de 2017

DIÁRIAS DE VEREADORES DO RS EM 2016 TEVE UM CUSTO DE 14 MILHÕES DE REAIS



ZERO HORA - 28 de março de 2017 | N° 18804


GIOVANI GRIZOTTI


POLÍTICA. Gasto com diárias nas Câmaras do RS foi de R$ 14 milhões em 2016

LEVANTAMENTO DO MP DE CONTAS mostra que municípios do Interior tiveram os maiores custos

Conforme levantamento do Ministério Público de Contas (MPC), as Câmaras de Vereadores das 497 cidades gaúchas custaram juntas, no ano passado, mais de R$ 895 milhões aos cofres públicos. Só em diárias, foram R$ 14 milhões, revelou ontem reportagem do RBS Notícias, da RBS TV.

O estudo aponta o ranking de gastos com diárias. O Legislativo de São Gabriel é o campeão. Consumiu R$ 264 mil – um vereador chega a receber um salário mínimo e meio para participar de curso de quatro dias em Porto Alegre. Ao pesquisar no site do Tribunal de Contas do Estado, a reportagem descobriu casos de parlamentares não reeleitos que fizeram cursos depois da eleição de outubro, mesmo sabendo que o mandato terminaria em poucas semanas. Caio Rocha (PP), por exemplo, recebeu R$ 1,4 mil para frequentar um simpósio em novembro na Capital.

– Não sou (candidato) agora (em 2016), mas posso ser na próxima (eleição) – justifica Rocha.

FISCALIZAÇÃO PODE EVITAR DISTORÇÕES

Para o procurador-geral do MPC, Geraldo da Camino, os cidadãos devem acompanhar mais de perto a preparação do orçamento das Câmaras, podendo evitar desembolsos excessivos:

– Esses gastos ocorrem porque a população não se atenta à fiscalização da execução do orçamento. O controle social é o mais importante e o mais legítimo.

O presidente da União dos Vereadores do RS (Uvergs), Silomar Garcia, também afirma que cidadãos não costumam participar das audiências para discutir os gastos:

– Sabemos que existe discrepância, distorção dos valores, mas a comunidade também é culpada. A Lei de Responsabilidade Fiscal prevê audiências públicas para debater a elaboração do orçamento, e a comunidade não comparece.

A fiscalização poderia evitar distorções como a verificada em Triunfo. Com nove vereadores e uma sessão por semana, a Câmara custou R$ 9,7 milhões no ano passado, a maior parte com cargos de confiança (CCs). É mais do que o total de gastos do hospital da cidade, que atendeu no mesmo período quase 29 mil pessoas e corre o risco de fechar por falta de recursos. O presidente da Câmara, Marcelo Wadenphul (PMDB), promete reduzir os dispêndios em 2017:

– A gente pretende devolver em torno de R$ 2 milhões este ano. Já foram devolvidos R$ 300 mil e assinamos a devolução de outros R$ 600 mil.

Hoje, há mais de 40 CCs na Câmara de Triunfo. O próprio presidente não consegue lembrar, com exatidão, quantos assessores tem.

– Se não me falha a memória, acho que são seis. Cinco. Acho que é por aí – afirma Wadenphul.

sábado, 25 de março de 2017

A ARMADILHA DA LISTA FECHADA

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ZERO HORA 25 de março de 2017 | N° 18802



EDITORIAL





O ex-ministro do STF Ayres Britto diz que o modelo de lista fechada é incompatível com a Constituição e equivale a substituir a democracia pela partidocracia.

Adotado por cerca de 30 países no mundo, o modelo eleitoral da escolha por lista fechada, pelo qual os eleitores votam nos partidos políticos em vez de escolherem candidatos avulsos como ocorre atualmente no Brasil, cabendo às legendas predefinir a ordem dos votados, passou a ser defendido com fervor pelos investigados na Lava- Jato. Fora desse contexto, o sistema do voto em lista até faria sentido, para fortalecer e assegurar maior coerência ideológica aos partidos. No momento atual, porém, a proposta de mudança para esse sistema – não por acaso defendida pelos presidentes da Câmara e do Senado – soa como um escancarado movimento de autodefesa de quem teme a investigação. Além disso, o modelo facilitaria a reeleição dos atuais parlamentares, evitando a perda de prerrogativa de foro de alvos da Lava-Jato.

Nesta semana, em entrevista à GloboNews, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto desmascarou de vez a manobra capitaneada por lideranças do Congresso. Afirmou que o sistema é incompatível com o modelo constitucional brasileiro e que equivale a substituir a democracia pela partidocracia. O jurista argumenta que o voto previsto pela Constituição é “direto, secreto, universal e periódico”, no candidato e não no partido. Por fim, advertiu que o modelo favorece o chamado “caciquismo” e não se constitui em boa prática.

Há opiniões divergentes respeitáveis sobre o tema, como a do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, que prefere a lista fechada ao sistema atual. Ele lembra que o voto nominal também acaba sendo computado para a legenda e pode garantir a eleição indireta de candidatos que o eleitor nem sequer conhece. Na sua visão, o sistema de lista fechada também tornaria menos onerosas as campanhas eleitorais.

O debate é oportuno, pois o país tem urgência em definir regras para a eleição de 2018, que já se avizinha. Mas dois aspectos da realidade têm que ser considerados nesta discussão: a descrença da população nos partidos e nos próprios políticos e a expectativa dos brasileiros de que os envolvidos na corrupção investigada pela Operação Lava-Jato não ficarão impunes. A lista fechada não pode ser utilizada para tornar sem efeito a lista de Janot.

sexta-feira, 24 de março de 2017

ABUSO DE PODER

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ZERO HORA 24 de março de 2017 | N° 18801


DAVID COIMBRA




Há muita gente preocupada com o que chamam de “abuso de poder”, no Brasil. Gente como Renan Calheiros, Sarney, Lula, Dilma, Cunha, Jucá, entre outros. Todos eles, curiosamente, poderosos.

Eu aqui não tenho poder algum, mas também me preocupo com o abuso de poder.

Por exemplo:

O poder de nomear apaniguados para diretorias de grandes empresas estatais e órgãos de fiscalização.

O poder de beneficiar empreiteiras em obras do Estado.

O poder de afastar do caminho fiscais que estejam fazendo o seu serviço corretamente.

O poder de comprar e vender medidas provisórias.

O poder de usar dinheiro do contribuinte para financiar blogs de propaganda política.

O poder de governantes se associarem a empresários para que ambos se locupletem com recursos do Estado.

Isso, de fato, é abuso de poder.

Sempre se abusou do poder no Brasil. Sempre se disse que esses poderosos jamais seriam alcançados pela lei, que eles podiam fazer o que quisessem, que no Brasil valia tudo para quem tinha dinheiro e... poder.

Mas agora é diferente. Agora, os poderosos também estão respondendo pelos seus atos. É a isso, a essa responsabilização, que esses poderosos chamam de “abuso de poder”.

Outros, nem tão poderosos, fazem coro. Também acham que a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça praticam abuso de poder. Compreensível. A ideia de que todos são iguais diante da lei ainda é chocante no Brasil, um país em que os maiores valores são, precisamente, dinheiro e poder.

Observe como o país reagiu à Operação Carne Fraca. Só o que se fala é nas exportações, nas vendas da carne brasileira. Ou seja: no dinheiro que a carne gera.

E a saúde das milhares, talvez milhões de pessoas que se alimentaram com carne estragada durante tanto tempo?

Nós entrevistamos, no Timeline, o fiscal que fez a denúncia desencadeadora da operação. Entre outras revelações, ele contou que esse escândalo ocorre há mais de 10 anos, que os antigos ministros da Agricultura sabiam do que acontecia e que, em muitos casos, a carne podre ficava mergulhada em produtos químicos por 30 horas para ganhar aparência saudável no supermercado.

Você comeu essa carne. Os seus filhos comeram.

O que pode ter ocorrido com sua saúde e a de seus filhos, com a saúde de multidões de brasileiros que se alimentaram com esse veneno por mais de 10 anos?

Por que ninguém nem sequer especula sobre isso?

Por que só se fala nas exportações e no que as empresas vão perder com as denúncias?

Porque, no Brasil, o dinheiro é mais importante. O poder é mais importante.

Eles têm dinheiro. Eles têm poder. Eles abusaram do poder. E só o que querem é continuar abusando.

terça-feira, 7 de março de 2017

MANDATOS SOB SUSPEIÇÃO

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ZERO HORA 07 de março de 2017 | N° 18786


EDITORIAIS





Depois de ouvir executivos e ex-executivos da Odebrecht sobre as doações irregulares para a última campanha presidencial, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, promete finalizar o relatório que trata da impugnação da chapa Dilma/Temer ainda no primeiro semestre deste ano. As informações vazadas dos depoimentos praticamente desfazem a tese da separação de campanhas e apontam para uso de dinheiro ilícito por ambos os candidatos, o que, em tese, significa perda dos direitos políticos para a ex-presidente Dilma e cassação do mandato do presidente Michel Temer. Mas os recursos possíveis e os prazos legais indicam que o processo não será concluído antes de Temer deixar o cargo, no final de 2018. Neste caso, o processo será extinto.

O relator tem pressa de apresentar seu voto ao plenário do TSE, pois seu mandato termina em outubro deste ano e ele não poderá ser reconduzido. Porém, mesmo que o Tribunal Superior Eleitoral conclua o julgamento em 2017, os acusados poderão recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Considerando-se a conhecida sobrecarga da Corte Suprema, dificilmente haverá tempo hábil para o trânsito em julgado até o final de 2018.

Caso todos os trâmites fossem agilizados e houvesse um desfecho antes do final do mandato de Michel Temer, o país se veria diante de uma situação ainda mais complicada: um novo presidente teria que ser eleito em 30 dias, de forma indireta, pelo Congresso Nacional. E muitos dos atuais deputados e senadores, como se sabe, estão sob investigação e seus nomes devem figurar na nova lista do procurador- geral da República, Rodrigo Janot.

O recrudescimento da crise política, motivado pelos recentes depoimentos de agentes da corrupção na Operação Lava-Jato e no TSE, deixa o país em sobressalto exatamente no momento em que a economia dá tênues sinais de recuperação. Por enquanto, é impossível vislumbrar uma saída satisfatória para o imbróglio, mas ninguém pode ter dúvidas de que o país só terá um futuro digno se continuar sendo passado a limpo.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - TRANSITAR EM JULGADO AS FRAUDES ELEITORAIS COM A MÁXIMA URGÊNCIA É GARANTIR CONFIANÇA NA JUSTIÇA E NA LISURA DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES, IMPEDINDO QUE PARTIDOS E POLÍTICOS CORRUPTOS SE CANDIDATEM E SE MANTENHAM NA VIDA PÚBLICA PARA DRENAR O PAÍS...

domingo, 22 de janeiro de 2017

ESTADOS UNIDOS PRIMEIRO



ZERO HORA 21 de janeiro de 2017 | N° 18748


TRUMP REAFIRMA "EUA PRIMEIRO"



Com um discurso marcado por um forte tom protecionista, o magnata do setor imobiliário Donald Trump prestou juramento ontem como o 45° presidente dos Estados Unidos e anunciou que todas as decisões de Washington serão orientadas a priorizar o país.

– A partir deste dia, uma nova visão governará nossa pátria. A partir deste dia, os Estados Unidos vêm primeiro – disse Trump em seu discurso de 20 minutos.

O altivo ex-astro de reality show sem qualquer experiência política assumiu as rédeas da primeira potência mundial das mãos do democrata Barack Obama.

Trump, que pretende deportar até 4 milhões de migrantes ilegais com ficha criminal e construir um muro nos 3,2 mil quilômetros de fronteira com o México, também enumerou em seu discurso “duas regras simples: compre (produtos) americanos e empregue (funcionários) americanos”. Foi aplaudido várias vezes por milhares de simpatizantes vindos de todo o país.

Antes e depois da cerimônia de posse, centenas de manifestantes anti-Trump entraram em confronto com a polícia no centro de Washington. Eles atiraram projéteis, quebraram vidraças e foram dispersados com bombas de gás lacrimogêneo.

– A cerimônia de hoje (sexta-feira) tem um significado muito especial porque não estamos meramente transferindo o poder de um governo a outro, de um partido a outro. Estamos transferindo o poder de Washington e devolvendo-o a vocês, o povo – disse o septuagenário Trump à multidão.

Ele lamentou que o país “enriqueça as indústrias estrangeiras” e “subsidie exércitos estrangeiros”.

– Defendemos as fronteiras de outros países, enquanto nos negamos a defender as nossas. Devemos proteger nossas fronteiras dos estragos de outros países que fabricam nossos produtos, roubam nossas empresas e destroem nossos empregos – acrescentou o presidente.

Na cerimônia de posse, celebrada nas escadarias em frente ao Capitólio, sede do Congresso americano, também prestou juramento mais cedo o novo vice-presidente, Mike Pence.

A vitória de Trump, que deixou o planeta atônito, está ancorada sobretudo nos votos de uma classe trabalhadora branca que desconfia dos políticos tradicionais e que sente que a globalização a prejudicou, transferindo empregos para outros países.

NA PÁGINA DO EXECUTIVO, AMEAÇA DE RETIRADA DO TPP E DO NAFTA


Em um documento publicado na página da Casa Branca na internet, Trump anunciou que retirará os Estados Unidos da Aliança Transpacífico (TPP, na sigla em inglês, formado por 12 países, como Chile, México e Peru, que respondem por 40% da economia mundial) e que foi assinado em fevereiro, mas ainda não foi ratificado. Também ameaçou abandonar o acordo de livre comércio com o México e o Canadá (Nafta). “Se nossos parceiros se recusarem a uma renegociação que ofereça aos americanos um tratamento justo, então o presidente comunicará a decisão dos Estados Unidos de se retirar do Nafta”, acrescentou o texto.

O México observa o bilionário nova- iorquino com inquietação. Suas políticas já lhe custaram milhões em investimentos empresariais não materializados e poderiam arrastar o país para uma recessão.

O gabinete de Trump é o mais branco e o mais rico em décadas. Tem um único negro e, pela primeira vez em quase 30 anos, nenhum hispânico, o que lhe rendeu fortes críticas da principal minoria do país, com mais de 55 milhões de pessoas (17% da população). A ausência de hispânicos no gabinete não é surpreendente para um presidente que promete tomar medidas duras contra a minoria.

Trump também poderia voltar atrás na aproximação com Havana, impulsionada por Obama, e tudo indica que será mais agressivo com a Venezuela.

Milhares de pessoas se manifestaram pacificamente, mas também houve protestos violentos e confrontos com a polícia. Pouco antes, dezenas de manifestantes, muitos encapuzados e vestidos de preto, atiraram pedras, quebraram vitrines de várias lojas, incluindo uma cafeteria Starbucks, uma agência do Bank of America e uma limusine. “Não às deportações, não à Ku Klux Klan, não aos Estados Unidos fascistas!”, repetiam. EM TOM FORTEMENTE PROTECIONISTA, o 45º presidente americano tomou posse com a promessa de transferir o poder de Washington para vocês, o povo e de empregos

Washington


+ ECONOMIA | Marta Sfredo

RISCO TRUMP OUTRA VEZ EM ELEVAÇÃO

Pelas reações dos mercados, ainda havia muitos otimistas. Desde a surpreendente eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, mantinha-se a interrogação: quem assumiria a Casa Branca seria o mesmo candidato de frases abertamente xenófobas, manifestamente protecionistas? Em seu discurso da posse, ele fez questão de responder que sim.

Se o primeiro discurso após a vitória havia reforçado a esperança de quem esperava o arquivamento das teses agressivas, o da posse reavivou os temores de quem vê no poder um Trump igual ao que percorreu os EUA com suas palavras segregadoras. Durante a fala, houve deslizes em todos os principais índices de bolsas de valores do planeta. Os de Nova York, que andavam animados com as perspectivas de estímulo à economia, não caíram, mas encurtaram os ganhos.

Como o pronunciamento foi pesado no tom mas não trouxe medidas concretas, o desânimo foi temporário. O que se projeta para os próximos dias – há expectativa de medidas de curto prazo, especialmente para mudar deliberações do governo Obama –, é muita volatilidade: altas se não houver novidade, baixas acompanhando “trumpices”. É provável que seu primeiro alvo, como ele tem avisado, seja o programa de saúde apelidado de Obamacare. Mas estão na economia alguma das principais preocupações e, portanto, ações do novo presidente.

Para poupar os leitores apenas de adjetivos autorais, a coluna recolheu algumas reações, no Twitter – para se beneficiar da concisão –, de economistas, historiadores e filósofos que escolheram viver nos EUA, assim como o avô alemão de Trump há mais de um século. Nouriel Roubini, espécie de fruto da globalização, com origens israelense, iraniana, turca e italiana, que se tornou famoso ao “prever” a crise de 2008, caracterizou assim: “raivoso, populista, nacionalista, unilateralista, depressivo, insultante, mau, sem meios-tons, intolerante, arrogante”. O filósofo descendente de japoneses Francis Fukuyama, considerado ideólogo do governo Reagan e autor da tese do “fim da história” – o que incluía a vitória final do capitalismo liberal: Trump só falou para um fatia específica dos EUA, não para todos nós”.

Uma das frases de Trump mais espantosas – não por acaso, virou manchete do site do The New York Times – foi “this american carnage stops right here” (essa carnificina americana para aqui). Jornalistas americanos compararam a frase com a famosa citação de John Kennedy “não pergunte o que a América pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pela América”, que se tornou um clássico. Não houve trechos edificantes no pronunciamento. Apenas uma coleção de ameaças, bravatas e palavras duras. Não foi à toa que colheu protestos violentos nas ruas. O risco Trump voltou a subir.


MAL DONALD TRUMP CHEGOU AO SALÃO OVAL, MANDOU MUDAR O SITE DA CASA BRANCA. SUMIRAM DE LÁ, POR EXEMPLO, AS SEÇÕES DEDICADAS AOS DIREITOS LGBT E ÀS MEDIDAS PARA CONTENÇÃO DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS.

DEMAGOGIA

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ZERO HORA 21 de janeiro de 2017 | N° 18748. PROA


FRANCISCO MARSHALL


Na Guerra do Peloponeso, Tucídides distingue alegações apresentadas por Atenas e Esparta para iniciar o conflito e analisa suas causas reais. No plano diplomático, descreve a ambição imperial de Atenas e a contrariedade de Esparta, mas o melhor de suas análises está no plano interno de Atenas, quando examina os processos decisórios que levaram esta pólis à dupla catástrofe, guerra e derrota. Neste passo, o historiador age como sociólogo, antropólogo e cientista político, examinando como agem os homens em certas condições e o que podemos aprender para evitar erros no futuro. Admirador de Péricles, Tucídides induz o leitor a crer que foi a morte deste (no segundo ano da guerra que duraria 27 anos, de 431 a 404 a.C.) e o consequente triunfo da demagogia em Atenas a causa da derrocada. Analisa, então, o líder Cléon e sua relação com a massa (demos) na assembleia ateniense (a eclésia); é o primeiro estudo sobre a demagogia, apresentada em caráter negativo, como parte da insensatez que pode ameaçar a democracia. A palavra-chave é manipulação: o demagogo manipulando as massas, estas jogando com a ambição de poder do líder.

É este caráter negativo que predomina na cultura política contemporânea, em que demagogia e demagogo são adjetivos de ataque, sobretudo aos líderes populistas, de enorme expressão na América Latina do século XX. Ocorre que há, paradoxalmente, um aspecto positivo na demagogia clássica: a interpretação da vontade popular e a produção de políticas que a atendam. A demagogia pode ser uma forma de comunicação entre o povo e o poder, e permite que se amplie a legitimidade política e a realização de programas cujo beneficiário é o povo. Foi assim com a ação dos líderes populistas no Brasil, responsáveis por modernizações importantes, no rumo de uma sociedade burguesa com classe média proficiente, projeto ainda inconcluso.

Entre as figuras negativas da demagogia, estão o uso perdulário dos recursos públicos para adular o povo, a apresentação do líder vestido em imaginário heroico e a substituição da ação pela propaganda. O líder quer ser visto como providente, e comemora inaugurações e entregas de ambulâncias, mesmo que estas sejam a realização de sua obrigação. O demagogo não tem pudor de dizer que é o cara e que uma nova era se inicia, nem deixa de se apropriar de frases de efeito, mesmo que não as compreenda ou pratique. A desconexão entre ação e propaganda permite que um político hostil ao ambiente se apresente como campeão da sustentabilidade, que um promotor do atraso se diga homem do progresso, ou que pose de sambista faceiro quem trata da morte do samba.

Foi o poder da imprensa e da propaganda que produziu a mutação decisiva da demagogia na sociedade de massas, desde o início do século XX. Sem contato com o povo, o político (com o vilão marqueteiro) formula imagens e as justifica como populares. A dinâmica histórica fica opaca, sem fluxo e refluxo entre povo e lideranças, pois a vontade popular passa a ser tutelada, induzida por mensagens que levam o povo a apoiar candidatos, governantes e medidas que o prejudicam. Assim o povo torna-se refém de uma vontade exótica, e é conduzido a um destino alienado. Para piorar, cada vez mais as pesquisas de opinião balizam a política, intensificando o efeito da máquina de propaganda que hoje move opinião pública e poder. Bons tempos os da demagogia clássica, pois a demagogia atual, midiática, é mais uma fonte da crise política. E sobrevive a pergunta: o que é e como interpretar a vontade popular? Ainda existe povo no mundo atual?

ARQUEÓLOGO E PROFESSOR DA UFRGS

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

CRÔNICA DE UMA MORTE ANÚNCIADA

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ZERO HORA 23 de dezembro de 2016 | N° 18722. EM DIA


VINICIUS OCHOA PIAZZETA




Ainda que o título desta minha última coluna em 2016 remeta à célebre obra de Gabriel Garcia Márquez, não pretendo traçar maiores paralelos entre a morte de Santiago Nasar e a morte do “velho” Brasil, mesmo que a ideia seja bastante sedutora.

O ano vai chegando ao fim e gostaria de poder conversar com os leitores um pouco também sobre o Natal, seu significado e algumas reflexões sobre o crescente nacionalismo e egoísmo no mundo, ou ainda sobre o aspecto da data simbolizar também um momento de nascimento.

A vida é feita de escolhas, afinal, e o ano vai chegando ao fim legando-nos a inescapável conclusão de que muitas das opções feitas se mostraram equivocadas.

Um dos anos mais conturbados da história política e econômica do país. A destituição de mais um presidente da República, a recessão mais forte desde a quebra da bolsa em 1929, a prisão de congressistas, a escalada da inflação, o drible do presidente do Senado em um oficial de justiça, nosso Supremo Tribunal, sem falar nas quase 40 fases da Operação Lava-Jato, acrescidas das recentes movimentações do governo federal em revisitar a CLT, publicar programa de parcelamento de débitos tributários, e algumas outras, acabam impondo-se como assunto em todas as rodas de conversa que tenho participado, o que julgo auspicioso para o futuro.

No âmbito estadual, igualmente as coisas andam movimentadas. Sou um defensor do Jardim Botânico e tantas outras causas e iniciativas nobres; contudo, o fato é que o velho Brasil estava com sua morte anunciada e fizemos nada, ou muito pouco para reverter o quadro que nos trouxe até aqui, a essas difíceis decisões. Será preciso reconstruir o país, o Estado e o município em 2017.

E o único caminho para tanto é um engajamento cívico da população. Ativo e prévio à publicação das leis! Um interesse e uma participação maior nos assuntos econômicos, legais e tributários. Afinal, tudo é construído com o nosso dinheiro (contribuintes). Os ingleses pagam algo em torno de 710 reais por ano para manter a BBC, e há protestos regulares quanto a essa obrigatoriedade, por exemplo. Discussões assim são a verdadeira essência da cidadania, prática há muito esquecida ou negligenciada em terras brasileiras. Pelo que desejamos pagar?

Se o velho Brasil morreu de fato em 2016 e um novo Brasil precisa ser construído, somos nós, cidadãos, que deveremos tomar a trolha, o maço e o cinzel em nossas mãos. Feliz Natal a todos os leitores e a suas famílias e que todos façamos as melhores escolhas no ano que vai nascer.

 PRESIDENTE DA PACTUM CONSULTORIA EMPRESARIAL